terça-feira, 21 de janeiro de 2014

1793 - Luís XVI é guilhotinado em Paris

Luís XVI, 38 anos, é executado na guilhotina, no domingo, 21 de janeiro de 1793, na Praça da Revolução, hoje Praça da Concórdia.
O rei abatido é tirado no começo da manhã da prisão de Temple. É transportado não na charreta habitual dos condenados, mas sim na viatura do prefeito de Paris, a pedido deste, e conduzido ao local do cadafalso.

Ao pé do patíbulo, volta-se para o abade Edgeworth de Firmont, que havia sido requisitado pela Assembleia para assisti-lo em suas horas derradeiras. Segundo o próprio verdugo, Luís morreu dignamente, animado por uma fé profunda.
Com as mãos atadas às costas, o rei avançou até a borda do cadafalso, fez calar os tambores e gritou à multidão : “Franceses, morro inocente; perdoo meus inimigos; desejo que minha morte seja ...” Porém, um rufar de tambor cobre suas derradeiras palavras.
Tão logo Luís XVI é decapitado, o algoz Sanson mostra sua cabeça à multidão. Escolhida a dedo e composta exclusivamente por ‘sans-culottes’, guardas, soldados e federados, ou seja, ardorosos revolucionários, a multidão reage: “Viva a Nação ! Viva a República !”
Examinados a posteriori entre seus erros mais graves, podem se destacar a reconvocação do Parlamento (1774) que se voltou contra si; a demissão do ministro das finanças Turgot (1776) ; sabotagem à tentativa de uma monarquia constitucional subordinada ao Legislativo (1791) ; a declaração de guerra à Áustria (1792).
A seu crédito, em contrapartida, uma grande preocupação com o bem-estar de seus súditos. Lembre-se sua recusa de permitir que a “guarda suíça” atirasse contra os manifestantes por ocasião das jornadas revolucionárias de 5 de outubro de 1789, em Versalhes, e de 10 de agosto de 1792, nas Tuilerias.
Luís XVI foi derrocado pelos revolucionários parisienses em 10 de agosto de 1792. Esta jornada marcou uma guinada na Revolução, até então moderada e liberal, levando os jacobinos e os ‘montagnards’ à hegemonia política. Três dias mais tarde, o rei é preso no Temple junto a sua família: sua mulher, Maria Antonieta da Áustria, sua irmã Madame Elisabeth, seu filho, o delfim e sua filha Madame Royale.
Em 20 de novembro de 1792, a descoberta oportuna de um “armoire de fer” (um cofre-forte) nos apartamentos reais das Tuilerias traz à tona a correspondência secreta entre Luís XVI e Mirabeau, dando a entender um complô com o duque de Brunswick, príncipe-soberano do Sacro Império Romano-Germânico.
Em 3 de dezembro de 1792, diante da Convenção, Maximilien de Ropbespierre dá o tom do futuro processo contra Luís XVI em um de seus mais célebres discursos em que figura pela primeira vez a expressão que viria a ter nos séculos vindouros ampla repercussão política e jurídica : “criminoso contra a humanidade”. Em nome dos ‘montagnards’, determinados a fazer avançar a Revolução, defendeu a necessidade de condenar o rei para legitimá-la.
Os deputados girondinos temiam desordens e novas dissensões se o rei fosse executado. Queriam pôr fim à Revolução assim que a democracia fosse instalada e o inimigo repelido, mas não puderam evitar a abertura do processo de Luís XVI.

O rei comparece em 11 de dezembro de 1792 diante da Convenção, constituída em tribunal e instalada na Sala Manège, nas Tuilerias. O monarca é acusado de alta traição por ter feito jogo duplo ante as assembleias nascidas da Revolução, de tentar fugir ao estrangeiro em junho de 1791 e de ter conspirado com potência estrangeira.
Ao se abrir o processo, Luís mostra-se sereno e confiante. Sua sinceridade impressiona até o mais radical de seus adversários, como Marat, que em seu jornal, exprimiu sua empatia pelo acusado. Todavia, com o desfile das acusações, perde totalmente as ilusões apesar da dedicação de seus defensores: Malesherbes, Tronchet e Desèze.
No dia de Natal, Luís redige seu testamento, que, no momento em que se dirigia ao cadafalso, pediu aos funcionários municipais que  fosse entregue a sua mulher.
Em 15 de janeiro de 1793, 707 deputados dos 718 presentes julgam o rei culpado de conspiração contra a segurança do Estado. Por 423 votos a 281, rejeitam em seguida a ideia dos deputados moderados da Gironda de fazer ratificar o julgamento pelo povo.
Por fim, mediante votação nominal e aberta que durou 36 horas, os deputados se pronunciaram sobre a pena a aplicar ao condenado. Cada qual foi chamado a justificar seu voto. A maioria exigida era de 361 votos e 387 deputados pediram a pena de morte, mas 26 abriram a possibilidade de sursis. Com efeito, faltou apenas um voto para que Luís XVI escapasse da guilhotina.
Entre os ‘montagnards’ que votaram pela morte figurou Felipe de Orleans, primo do rei. Deveu, portanto, Luís ao primo não poder ser beneficiado pelo sursis. Ironia do destino: Felipe de Orleans seria mais tarde ele próprio guilhotinado junto com os ‘Montagnards’. Mas seu filho viria a reinar sob o nome de Luís-Felipe I.
Entre os convencionais que votaram pela morte do rei figurou Louis Le Peletier de Saint-Fargeau. Iria pagar com sua vida. Este jovem aristocrata fora, sob o Antigo Regime, presidente do Parlamento de Paris. Deputado da nobreza de Yonne aos Estados Gerais, ele se alia em julho de 1789 ao campo da Revolução e iria desde então defender as novas ideias com tanta fogosidade quanto se pôs, anos antes, a defender os interesses dos privilegiados. Deve-se a ele o artigo 3º do Código Civil: “todo condenado a morte terá sua cabeça decepada”. Foi apunhalado na véspera da execução de Luís XVI por um ex-guarda do corpo do rei, Philippe Pâris, num restaurante do Jardin-Égalité. O assassino queria vingar a condenação do rei.
A Convenção prontamente declarou Le Peletier “mártir da Revolução” e o pintor David lhe prepara funerais grandiosos. Seu cadáver, nu, contornado de flores, foi assim transportado com grande pompa ao Panteão.
Fonte: Opera Mundi

Nenhum comentário: