quarta-feira, 30 de abril de 2014

Autoridades militares sabiam do atentado ao Riocentro, conclui CNV

Relatório apresentado pela Comissão da Verdade diz que explosão foi fruto de "minucioso e planejado trabalho de equipe” e reafirma haver fortes indícios da participação de membros do alto escalão do Exército e do SNI.
A Comissão Nacional da Verdade (CNV) afirma, em relatório divulgado nesta terça-feira (29/04) no Rio de Janeiro, que há “fortes indícios” de que autoridades do alto escalão do Exército estavam cientes do planejamento do atentado a bomba no Riocentro, em 1º de maio de 1981, durante um show para comemorar o Dia do Trabalhador.
A explosão, fruto de um “minucioso e planejado trabalho de equipe”, matou o sargento Guilherme Pereira do Rosário e feriu o capitão Wilson Luiz Chaves Machado, que estavam em um veículo estacionado próximo à casa de força da casa de espetáculos.
O atentado do Riocentro é parte de uma série de outros ataques registrados entre 1980 e 1981. Segundo o relatório, instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), além da sede de jornais e bancas de venda de periódicos foram alvo de ataques.
"Os atentados como o do Riocentro visavam dificultar a abertura política e dar uma sobrevida ao regime militar”, disse o coordenador da CNV, Pedro Dallari, durante a apresentação do relatório.
O documento também concluiu que o objetivo da ação era atribuir a autoria do ataque do Riocentro a grupos armados contrários ao regime. Segundo a comissão, falhas na execução evitaram uma tragédia de maiores proporções.
Para elaborar o relatório, a CNV reavaliou as informações dos inquéritos policiais produzidos sobre o caso, documentos do Arquivo Nacional, reportagens jornalísticas feitas na época, além de outros documentos fornecidos por militares ligados aos órgãos de comando na época.
Investigação manipulada
Segundo o relatório apresentado pela CNV, o inquérito realizado na época apresentava o sargento Rosário – morto no ataque – e o capitão Wilson Machado – que ficou ferido - como vítimas. A CNV confirmou que a bomba estava no colo do Sargento Guilherme, sentado no banco anterior direito do veículo Puma, contrariando a versão apresentada como oficial que colocava a bomba sob o banco do carro.
A versão foi mantida quase 20 anos e o caso só foi reaberto em 1996 após várias solicitações de novo julgamento. Em 1999, o STM voltou a arquivar o caso.
Durante o processo de investigação, a CNV encontrou provas de manipulação das investigações e reprimendas aplicadas aos que questionaram a lisura do processo de apuração, entre eles o coronel Luiz Antônio do Prado Ribeiro e do almirante Júlio de Sá Bierrenbach.
Em um dos depoimentos colhidos pela CNV e reproduzidos no relatório, o almirante de esquadra Júlio de Sá Bierrrenbach justifica sua decisão de não concordar com o arquivamento do processo no Superior Tribunal Militar (STM), ainda naquele ano: “Eu não estava contra o Exército, mas não podia engolir aquela solução. Era uma farsa total”.
O atentado
O Riocentro, instalado em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, era palco de um evento anual para comemorar o Dia do Trabalhador. A série de shows era organizada pelo Cebrade (Centro Brasil Democrático), ligado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Naquele ano, a coordenação era de Chico Buarque de Hollanda e prestaria homenagem a Luiz Gonzaga. Segundo os registros, cerca de 20 mil pessoas estavam no local para assistir a apresentações de artistas como Gal Costa, Gonzaguinha e Alceu Valença.
A explosão – que ocorreu por volta das 21h20 – interrompeu os shows. As investigações indicam que o atentado aconteceu antes da hora planejada, antes de a bomba ter sido colocada no local provável da explosão, que seria abaixo do palco.

DW.DE

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