terça-feira, 1 de abril de 2014

Londres exibe retratos da Primeira Guerra

Mostra na National Portrait Gallery expõe uma humanidade brutal e vulnerável e lembra a tragédia inerente a todas as guerras.
"Se você for ao campo de batalha em Verdun [França], poderá ver exatamente por que a União Europeia foi formada. Não queremos guerras como essa novamente." O coronel Richard Nunneley sabe do que ele está falando. Alto, bem vestido e articulado, o ex-soldado é um colaborador do Museu Nacional do Exército, em Londres, além de ser veterano na luta armada.
Nunneley recentemente visitou o que ele classificou como uma importante exposição no centro da capital londrina. Segundo ele, a mostra não apenas reflete sobre a Primeira Guerra Mundial, mas indiretamente também sobre todos os conflitos armados.
Metade alemão e casado com uma alemã, Nunneley diz que é vital lembrar que a Primeira Guerra Mundial foi uma carnificina para todas as nacionalidades. "Acho que deveríamos falar [sobre a Primeira Guerra Mundial] porque a dor é grande em ambos os lados", diz.
O coronel fez questão de que todos os seus filhos visitassem os campos de batalha da Primeira Guerra para assegurar que eles entendessem a brutal realidade do conflito. Desde que deixou o Exército, ele tem se dedicado a atividades educacionais sobre as trágicas consequências da guerra.
Escultura de Jacob Epstein, de 1913-14
"No Museu Nacional do Exército, organizamos uma exposição sobre mutilação e o nascimento da cirurgia plástica", diz Nunneley. "Tivemos muitas críticas (…), mas é nosso trabalho refletir sobre a realidade. A guerra é sangrenta e terrível."
Dar um rosto humano aos números
Nunneley foi um dos milhares de visitantes que foram à National Portrait Gallery, em Londres, para relembrar a sangrenta e horrível natureza da guerra. A Grande Guerra em Retratos é uma exposição com imagens de indivíduos envolvidos na guerra "para acabar com todas as guerras" e lembra o centenário do brutal e chocante conflito.
Conhecida pelo elevado número de mortes e pela destruição, a Primeira Guerra Mundial mudou a estrutura imperial, política e militar em vigor no início do século 20.
"Soldado da infantaria", de William Orper, de 1917
Mas a exposição não é sobre política ou estratégias militares, mas sobre a experiência humana da guerra, diz o curador Paul Moorhouse. "Em 1º de julho de 1916, no fim do primeiro dia da Batalha de Somme, 19.240 soldados britânicos foram mortos. Para compreender isso é necessário dar um rosto humano a esses números."
É esse elemento humano da guerra que é realmente fascinante, diz o visitante Penny Hamilton, de Londres, enquanto passeia entre imagens fotográficas do passado, "cartões postais" de figuras militares, impressionantes pinturas a óleo e vídeos de propaganda britânicos e alemães que compõem a exposição.
"Houve uma perda em quase todas as famílias", diz Hamilton. "Foi uma guerra de oportunidades iguais em relação às vítimas, por isso há um grande interesse, não importa de quem foi a culpa. O fato é que foi catastrófico para todas as nações."
Elemento humano da guerra
Os rostos expostos em Londres – alguns atormentados, outros sorridentes, outros parcialmente reconstruídos após mutilações – revelam o intenso sofrimento da guerra.
A exposição começa criando o contraste entre retratos majestosos de líderes nacionais da época e de poderosos comandantes militares com imagens de soldados cujos nomes não foram registrados. Essas imagens têm muito em comum com os soldados do século 21, diz Moorhouse. São simplesmente soldados rasos, esquecidos pela história.
No entanto, "o núcleo empírico e emocional da exposição", diz Moorhouse, é a instalação fotográficaThe Valiant and the Damned (O Valente e o Condenado), que foca em histórias individuais daqueles que participaram diretamente do conflito, ou estavam envolvidos indiretamente. Uma única parede coberta com 40 fotos – unidas numa instalação – lista nomes (quando conhecidos) e detalhes (muitas vezes trágicos) das mortes, como a do soldado Harry Farr, por exemplo.
Autorretrato de William Orpen, de 1917
Depois de servir bravamente os três primeiros anos da guerra, Farr chegou a um ponto de ruptura – provavelmente devido ao chamado "choque do escudo", ou transtorno de estresse pós-traumático – e se recusou a continuar lutando. Como resultado, ele foi executado por covardia diante do inimigo em 1916 – um dos 306 soldados britânicos executados por covardia ou deserção.
Imagens chocantes
Um aspecto particularmente angustiante da exposição é a seção dedicada aos soldados que tiveram o rosto mutilado. Ela contém imagens que foram, por muito tempo, ocultadas do público. Uma imagem do segundo tenente R.R. Lumley com o olho caído e ensanguentado é particularmente comovente.
O curador da exposição descreve o estigma em torno do sofrimento dos soldados cujos rostos foram, e algumas vezes ainda são, destruídos pela guerra como "uma terrível omissão de um elemento vital e humano na história".
"Na época, era aceitável aparecer em público sem uma perna ou um braço", diz Moorhouse. "Essas mutilações eram vistas como emblemas de coragem e dever. Mas se você tivesse seu rosto atingido, isso roubava sua identidade e a capacidade das outras pessoas de olhar para você. Mesmo integrantes da própria família não podiam olhar para eles. Então estamos trazendo essas pessoas de volta e restaurando seu lugar nessa narrativa."
"Autorretrato como soldado", de Ludwig Kirchner, de 1915
Algumas imagens não são para os que têm o coração fraco. Mas nem tudo é desgraça e tristeza. "Embora haja essa violência, crueldade e amargura, há retratos que mostram o contrário, que são as características enobrecedoras da humanidade – o heroísmo, a abnegação, a capacidade de rir de condições terríveis e uma espécie de inimaginável resistência sob incrível adversidade", diz Moorhouse. "E isso é, para mim, um aspecto extremamente positivo da natureza humana."
A Grande Guerra em Retratos está em cartaz na National Portrait Gallery, em Londres, até 15 de junho.

DW.DE

Nenhum comentário: