domingo, 6 de abril de 2014

Um museu digital sobre a Primeira Guerra

Conflito começou há cem anos. As testemunhas morreram, mas fotos, cartas e outros artigos de arquivos pessoais estão sendo digitalizados pelo projeto Europeana, que torna os itens públicos na internet.

Arquivos de jornais britânicos foram digitalizados
para fazer parte do projeto Europeana 1914-1918
Carregando uma pasta de couro marrom, Christine Sörje espera no hall de entrada da Biblioteca Estadual de Berlim. Ansiosa, ela quer logo revelar o conteúdo da pasta e finalmente mostrá-lo a alguém.
Um pouco nervosa, ela ajeita os óculos e olha para o relógio. São exatamente dez horas da manhã. Faixas delimitam um quadrado no amplo hall que normalmente tem aspecto frio e vazio. Duas fileiras de mesas ocupam a parte dianteira do espaço. Na parte de trás, há dois grandes scanners.
A biblioteca realiza um chamado "dia de ação", organizado pela iniciativa Europeana 1914-1918. Ela permite que, quem quiser, digitalize documentos da Primeira Guerra Mundial que guarda em casa, para torná-los acessíveis ao público.
Fotos, cartas e diários
Christine Sörje é uma das que querem muito divulgar o arquivo particular. Finalmente, ela é chamada e pode se sentar ao lado do historiador Simon Renkert, o arquivista digital da biblioteca. Ela mostra então o próprio acervo: pacotes com fotos, cartões postais, desenhos, cartas e diários. São peças de memória da Primeira Guerra, o espólio de uma avó e um tio-avô seus.

Christine Sörje mostra o arquivo de sua família ao arquivista Simon Renkert
Simon Renkert registra os dados dos parentes de Christine. Ele começa com Kurt Kässler, nascido no dia 30 de dezembro de 1896. Em 1915, ele partiu para a guerra, "voluntário", acredita a neta.
Ela começa a contar a história de seu querido avô Kurt, que combateu primeiro na Frente Ocidental, na França. Mais tarde, ele trabalhou como operador de rádio na Macedônia, onde fotografava durante as folgas.
Os motivos, conta Christine, eram de pessoas em mercados, de mulheres com trajes típicos, de montanhas e da natureza. As fotos não mostram os combates nas trincheiras. "Fiquei surpresa com essa curiosidade, essa abertura que se tem quando se está num país estrangeiro", diz a neta de Kässler. "O olhar sobre as pessoas é interessado, não julga. Essa postura parece ter se perdido completamente em seguida", constata.
Segundo ela, o avô não quis aceitar que a Alemanha perdeu a Primeira Guerra em 1918. Logo em seguida, ele se tornou membro do Partido Nacional-Socialista Alemão dos Trabalhadores (NSDAP) de Hitler. Mais tarde, se tornaria oficial da SS, a Schutzstaffel, polícia de elite do regime nazista.
Projeto para todo o continente
O que Christine Sörje está espalhando sobre a mesa da Biblioteca Estadual de Berlim é uma parcela da história alemã do século 20 – que ela conta ao arquivista digital, que pela idade poderia ser seu filho.
Simon Renkert agora é responsável por fazer com que qualquer pessoa possa ler a história da família de Christine por meio de documentos digitalizados apenas com um clique na internet. Essa nova ferramenta não se restringe à história da família de Christine, mas mostra os arquivos pessoais de dezenas de milhares de famílias em toda a Europa.
O projeto Europeana 1914 – 1918 é um gigantesco museu digital sobre a Primeira Guerra. Centenas de milhares de documentos já podem ser acessados no site www.europeana1914-1918.eu. Grande parte deles é oriundo de bibliotecas e arquivos, dezenas de milhares vêm de acervos particulares. Quase todas as fotos, filmes e documentos podem ser utilizados sem necessidade de licença.
O Europeana teve início em 2008 no Reino Unido, quando a Universidade de Oxford convocou cidadãos britânicos a digitalizar coleções particulares sobre a Primeira Guerra, ajudando também na classificação dos documentos, identificando locais e pessoas retratadas. Os arquivos passariam a fazer parte do chamado Great War Archive, ou Arquivo da Grande Guerra.

O casco de tartaruga trazido da guerra pelo pai de Frank Drauschke
Crowdsourcing para historiadores
O Great War Archive foi considerado um "crowdsourcing" (colaboração coletiva) para historiadores. Três anos depois, a Biblioteca Estadual de Berlim e a Biblioteca Nacional de Paris decidiram iniciar um projeto conjunto e mais amplo. Desde então, o Europeana teve a adesão de 20 países. "Dias de ação" já foram realizados em 12 deles. Cerca de 90 mil objetos privados já estão disponíveis online.
Para Frank Drauschke, "a marca dos cem mil será ultrapassada logo". Ele é responsável pelos "dias de ação" na Alemanha e também já disponibilizou objetos da própria família para o Europeana. Quando criança, brincava com o casco de tartaruga que o avô trouxe para casa, e tinha fascínio por um abridor de cartas cujo punho é feito de um estilhaço de granada.
Drauschke não acredita que cartões postais isolados mudem "a historiografia". "Mas a possibilidade de sentar diante do computador em casa e poder comparar diários franceses, alemães, dinamarqueses e cipriotas pode dar novos impulsos para a pesquisa. É como um diamante bruto que precisa ser lapidado pelos especialistas", opina o historiador.
Mas o arquivo digital também dá oportunidade a não historiadores de ler as cartas dos antigos inimigos e, na opinião de Drauschke, talvez reconhecer que as saudades de casa e o sofrimento eram parecidos em todas as frentes da guerra – mas que também a imagem dos inimigos era similarmente difundida em cartões postais de propaganda.

O portal www.europeana1914-1918.eu tem centenas de milhares de documentos online
Na sessão de Christine Sörje na Biblioteca Estadual de Berlim, testemunhos da propaganda de guerra ficam visíveis. Na mesa ao lado de Christine, Heinrich Reitz mostra um álbum em grande formato do bisavô. As páginas cinzentas são coladas com faixas de seda coloridas e ostentam dizeres heroicos e citações imperiais como: "Se o mundo estiver repleto de diabos e voltar suas armas contra nós, temos o poder de acabar com ele".
Trata-se de um volume conhecido como "Álbum Vivat". A cada batalha, artistas famosos elaboravam um novo álbum para vender. Os lucros eram destinados à Cruz Vermelha. "Vocês querem esse álbum? Eu quero me livrar dele", diz Reitz. A biblioteca quer o álbum, que após análise demonstra ser uma peça única. Todos os álbuns Vivat produzidos estão na Biblioteca Estadual de Berlim.
Christine Sörje, porém, não quer se livrar dos documentos de memória de sua família e deve levá-los de volta para casa depois da digitalização. "É um assunto muito emocional", diz. "Isso me aproxima dos meus avós, com todos os altos e baixos que fazem parte da história deles. E esse assunto também me torna responsável. Eu quero viver o presente de forma lúcida e consciente, e isso inclui ter conhecimento sobre o passado", afirma.

DW.DE

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