sexta-feira, 27 de junho de 2014

1905 – Eclode o motim a bordo do Potemkin, o principal encouraçado russo


Fato passou quase despercebido na Rússia, mas adquiriu patamar de mito ao ser retratado por Serguei Eisenstein

A eclosão de um motim a bordo do Potemkin, o principal encouraçado da frota de guerra russa em 27 de junho de 1905 passou despercebido numa Rússia sacudida por uma primeira revolução e uma guerra desastrosa contra o Japão. Porém, adquiriu notoriedade mundial, ao patamar de mito, em virtude do filme realizado pelo cineasta Serguei Eisenstein.
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Cartaz do filme "Encouraçado Potemkin"
Depois de sua derrota em Tsushima, um mês antes, diante da armada japonesa, a marinha do tzar Nicolau II foi agitada por movimentos diversos e os oficiais tiveram dificuldade em se fazer respeitar pelos marinheiros. Em terra, por todo o país, se multiplicavam greves e rebeliões em seguida ao “Domingo Vermelho” de 22 de janeiro de 1905 em São Petersburgo.
Sobre o encouraçado Potemkin, que levava o nome de um favorito da tzarina Catarina II, o comandante capitão Golikov, conseguia preservar a disciplina por meio de relativa humanidade com seus homens.
Enquanto realizava exercícios no Mar Negro, ao largo de Odessa, o encouraçado era reabastecido como de costume com provisões. No começo da manhã, os marinheiros se aproximaram das carcaças que pendiam sobre a ponte esperando servir-se, quando descobrem a carne em putrefação, fétida e infestada de vermes. O médico de bordo, doutor Smirnov, sentencia que a carne seria comestível depois de lavada com vinagre.
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Imagem do Potemkin no verão de 1905
Chega a hora do almoço. No refeitório, os cozinheiros levam a marmita de bortsch, com a carne cozida. Os marinheiros recusam-se a comer e vaiam os cozinheiros. Alertado, o capitão tem a má ideia de mandar rufar tambores e reunir a tripulação sobre a ponte. Depois de breves palavras, pede àqueles que aceitam comer que avancem dois passos. Por hábito e resignação, somente alguns veteranos obedecem. Sentindo-se afrontado, o capitão anuncia que não teriam outra coisa para comer.
Rebelião
Entre a tripulação figuravam alguns militantes revolucionários do partido socialdemocrata como seu chefe, Afatasy Matiuchenko. Eles haviam recebido de seu partido a consigna de preparar os marinheiros para uma insurreição geral da frota do Mar Negro.
Um marinheiro, de nome Vakulinchuk teria se aproximado do capitão e protestado duramente contra as condições de vida da tripulação. O capitão saca seu revólver e fere mortalmente o marinheiro.
Arrastada por Matiuchenko, a tripulação se amotina. Enquanto oito oficiais se juntam aos amotinados, contudo, o médico e diversos outros oficiais são mortos e atirados ao mar. O comandante não foi deixado de lado. Um oficial, Alexeiev, o prende sob vigilância estreita de Matiuchenko.
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Alguns dos tripulantes do Potemkin
Os amotinados içam a bandeira vermelha da revolução e dirigem o encouraçado ao porto de Odessa. Ao entrar no porto, no final da tarde, os marinheiros do Potemkin não sabiam que a lei marcial havia sido decretada pelo general Kokhanov em seguida às greves operárias.
Massacre
Na véspera, 26 de junho, uma manifestação havia sido selvagemente reprimida pela polícia e a cavalaria cossaca. O confronto sangrento entre os manifestantes e as forças da ordem, com centenas de mortos, prosseguiu no dia seguinte. E eis que surge o Potemkin, arvorando a bandeira vermelha.
A chegada do navio arrebata os líderes da greve que sobem a bordo e se aliam aos chefes dos amotinados. No dia seguinte, o cadáver do marinheiro Vakulinchuk é trazido a terra. Recebe homenagem emocionada de uma imensa multidão de operários e revolucionários.
A multidão excitada sobe a escadaria Richelieu de 240 degraus que liga o porto ao centro da cidade. O general Kokhanov aciona dois destacamentos de cossacos a cavalo. Do alto da escadaria, os cavaleiros massacram a multidão desarmada, fazendo centenas de vítimas, homens, mulheres e crianças. No fim do dia, sobre o cais vermelho de sangue e coberto de cadáveres só se percebe o pobre pálio que encobre o corpo do mártir Vakulinchuk.
Matiuchenko, respondendo a uma proposta de Kokhanov, assegura que os funerais dos mártires transcorreriam em calma se não ocorresse repressão. No dia seguinte, uma imensa multidão acompanhou o marinheiro à sepultura, bandeiras vermelhas à frente.
Todavia, tão logo se encerraram os funerais, soldados investem contra a multidão matando indistintamente homens e mulheres. Três marinheiros estavam entre as vítimas. A bordo do Potemkin, os marujos decidem bombardear o quartel-general instalado no teatro da cidade. Matiuchenko comanda o tiro, que só atinge casas habitadas por inocentes. Em decorrência manda suspender o bombardeio.
Naufrágio
O navio solta as amarras. Barcos de barco de guerra vindos de Sebastopol pedem que os amotinados se tranquilizem. Os oficiais mostravam-se temerosos do risco de contágio revolucionário. Os navios se aproximam do Potemkin e este, sem desferir tiros, passa entre eles. Os amotinados gritam: “Viva a revolução!”. Os marinheiros da frota respondem “Hurra!”.
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Homenagem feita pela União Soviética
Prudentes, os oficiais resolvem recuar, Porém o encouraçado Jorge o Vitorioso encontra um modo de se aproximar do Potemkin. Matiuchenko se vê frente e frente com três navios de guerra. Resolve voltar a Odessa com o objetivo de buscar o apoio da população, mas é impedido por um dos navios. Matiuchenko ordena abrir fogo. Atingido o Jorge, o Vitorioso acaba encalhando num banco de areia antes de voltar ao combate.
Após errar pelas águas do Mar Negro, o Potemkin se dirige ao porto romeno de Constança onde os amotinados obtêm asilo político. Matiuchenko, num último gesto de desafio, envia proclamações surrealistas aos governantes do planeta e afunda propositadamente o mítico navio antes de botar o pé em solo romeno.
Dois anos mais tarde, o tzar Nicolau II promete uma anistia aos revolucionários de 1905. Os amotinados, desconfiados, preferem permanecer na Romênia. Com exceção de cinco deles que preferiram regressar à Rússia, entre eles Matiuchenko. Reconhecido na fronteira, é preso e depois enforcado. Seus quatro companheiros foram enviados à Sibéria.
Fonte: Opera Mundi

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