domingo, 8 de junho de 2014

Documentos incriminam comerciante de arte do nazismo

Após descoberta do "Tesouro de Munique", é a vez de catálogos de Adolf Weinmüller mostrarem abrangência do comércio de arte extorquida de judeus durante período nazista.
"Tudo foi destruído nos ataques aéreos." Essa era uma frase que as tropas americanas ouviam com frequência logo depois da Segunda Guerra Mundial, enquanto procuravam obras de arte que haviam sido confiscadas pelos nazistas.
Além do notório Hildebrandt Gurlitt – que reuniu o chamado "Tesouro de Munique", revelado em novembro de 2013 – muitos comerciantes de arte nazistas tentaram lavar as mãos, sujas em aquisições antiéticas. Grande parte das transações de arte realizadas no início e durante a guerra envolveram trabalhos extorquidos de colecionadores judeus. Um desses comerciantes foi Adolf Weinmüller.
Gurlitt tinha bons contatos entre as autoridades nazistas. Ele era um dos quatro compradores para o planejado Führermuseum, em Linz, que deveria abrigar uma grande coleção de arte saqueada pelos nazistas e nunca foi concluído. Mas seu colega em Munique, o marchand Weinmüller, superou-o em muito, estabelecendo um monopólio sobre leilões envolvendo arte roubada.
A historiadora Meike Hopp pesquisa o caso Weinmüller desde 2009
O catálogo da casa de leilões de Weinmüller foi recentemente publicado na internet como parte do banco de dados de arte perdida Lost Art.
Ascensão de um oportunista
Weinmüller aderiu ao partido nazista bem cedo, em 1931. Naquela época, ele ainda estava desenvolvendo sua carreira como comerciante de arte, de acordo com Meike Hopp, historiadora do Instituto Central para História da Arte, na Alemanha. "Adolf Weinmüller teve um comércio de arte em Munique a partir de 1921, mas não sabemos muito sobre o período entre 1921 e 1933", diz ela.
Hopp escreveu sua tese de doutorado sobre Weinmüller e ajudou na recente publicação de seus documentos comerciais. "A partir de 1933, a carreira dele deu um salto, quando se tornou o presidente da Federação Alemã de Comerciantes de Arte e de Antiguidades", explica. "Depois disso, ele começou a ter grande influência na eliminação de comerciantes de arte judeus porque, como avaliador aprovado pelo Estado, recusava a concessão de licenças a comerciantes judeus que quisessem realizar leilões."
Isso significa que Weinmüller tinha uma visão geral sobre quais casas de leilão perderiam suas licenças e podia, assim, lucrar sem escrúpulos com a "arianização" do setor de arte.
Weinmüller criou um monopólio, afirma Uwe Hartmann
No final de 1938, depois dos ataques da Noite dos Cristais em novembro, todos os 628 comércios de arte e de antiguidade de propriedade de judeus foram fechados, e seus inventários foram saqueados.
Ao mesmo tempo, a casa de leilão de Weinmüller, fundada em 1936, tornou-se a mais importante do ramo. Um dos seus melhores clientes era o oficial nazista Martin Bormann, que foi encarregado de comprar valiosas pinturas a óleo para a coleção pessoal de Hitler.
Monopólio no mercado alemão de arte
Em pouco tempo, o leiloeiro conseguiu estabelecer um monopólio na cena de arte alemã, de acordo com Uwe Hartmann, diretor do departamento de pesquisa de proveniência do Instituto de Pesquisa Museológica dos Museus Estatais de Berlim. "Em algumas cidades, quase todas as obras de arte confiscadas de proprietários judeus depois de 1938 eram leiloadas pela casa dele."
No verão de 1941, Weinmüller começou a viajar regularmente a Praga, juntamente com Hans Posse, diretor do planejado Führermuseum de Linz.
"Ele foi autorizado a ir à sede da Gestapo e selecionar pinturas e móveis que haviam sido confiscados de colecionadores judeus e negociantes de arte", relata Hopp. "Isso indica claramente que uma grande parte dos objetos que ele comerciou foi possivelmente saqueada."
Descoberta dos catálogos de leilão de Weinmüller é uma valiosa
contribuição para pesquisa sobre arte roubada
Dimensões inimagináveis
Em 1944, Weinmüller tinha acumulado um patrimônio impressionante. Em Viena, ele assumiu a "arianizada" galeria judaica Kunsthaus Kende e abriu lá uma filial. Após a guerra, os chamados "monuments men", enviados pelas forças aliadas, recuperaram 34.500 obras em suas casas de leilão.
"Em comparação, Gurlitt era um peixe pequeno", afirma Hopp, salientando que a lista de inventário dos aliados sobre Hildebrandt Gurllit tinha três páginas, enquanto a de Weinmüller enchia uma pasta de fichário inteira.
"É difícil até imaginar a dimensão das obras que estavam em seu inventário em 1945", diz ela. "E foi baseado nisso que ele construiu seu negócio no pós-Guerra."
A publicação dos documentos de Weinmüller, datados de 1936 a 1943, revela a extensão de sua enorme coleção: 51 leilões foram registrados em 93 catálogos, que foram recentemente disponibilizados ao público no site Lost Art.
Os documentos incluem o fornecedor, o preço de venda e detalhes exatos de cada trabalho que foi leiloado por Weinmüller, com uma exceção, segundo Hopp. "Para nós, era claro que não queríamos publicar na internet os nomes dos compradores, a fim de evitar qualquer forma de difamação ou calúnia."
Soldado americano guarda, logo após a guerra, o chamado
Collecting Point, depósito de arte roubada pelos nazistas
Registros de leilões
Ao pesquisar o passado de Weinmüller para seu trabalho científico, Hopp tropeçou em evidências incriminatórias, mas documentos de negócios pareciam ter sido destruídos. Em 2009, com o apoio do governo federal alemão e da casa de leilões Neumeister, sua pesquisa foi expandida para um projeto maior.
"A descoberta por acaso de registros de leilão de Weinmüller num armário de aço, em março de 2013, foi o acontecimento mais valioso", diz Kathrin Stoll, diretora da casa de leilões Neumeister. "Havia fardos amarrados juntos em que era possível ver o nome do expedidor: Gestapo. Deu até arrepios."
Talvez seja uma expressão da responsabilidade democrática sentida pela geração do pós-Guerra: Stoll, cujo pai, Rudolf Neumeister, comprou a endividada casa de leilões de Weinmüller em 1958, rapidamente esclareceu com sua família que era preciso disponibilizar os documentos para pesquisadores e para o público.
"Nós não queríamos hesitar um dia sequer porque sabíamos que, a cada dia, herdeiros ou descendentes de famílias judias desapropriadas podiam morrer", afirma Stoll. "Sabíamos que tínhamos de ir a público logo, diferentemente do caso Gurlitt, que foi mantido em segredo por dois anos."
Hartmann tem grande admiração pela decisão de Stoll. "Ela deixa claro que lidar com esse assunto de forma diferente pode ser uma questão geracional. Ela descreveu isso de forma bastante visual ao dizer: 'não quero nenhum cadáver no meu porão!'", diz.

DW.DE

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