sexta-feira, 25 de julho de 2014

1923: Turquia assina Tratado de Lausanne, que legitima limpezas étnicas e redefine suas fronteiras

Em 24 de julho de 1923, a Turquia e os vencedores da Grande Guerra assinam em Lausanne um tratado que revoga e substitui o precedente tratado de paz, assinado em Sèvres, em 10 de agosto de 1920, pelos representantes do sultão.

Sem esperar o humilhante Tratado de Sèvres, que desmembrou a Turquia otomana em favor de seus vizinhos e das minorias, os gregos invadiram no início de 1921 a Anatólia com a aprovação tácita dos Aliados. No entanto, foram batidos. Não obstante, os gregos conseguiram empurrar as forças nacionais turcas para além do Sakarya, um rio que desemboca no mar de Mármara.

Wikicommons

Líderes mundiais assinam Tratado de Lausanne - tal acordo incentivou o pan-turquismo e o nacionalismo inspirado em limpeza étnica


Com poderes ditatoriais, Mustafah Kemal os detém ao sul do Sakarya em agosto de 1921 após uma longa batalha de três semanas. Completa seu êxito com uma vitória em Dumlupinar em 30 de agosto de 1922. As tropas gregas refluem para o mar Egeu.

Em 11 de setembro de 1922, deixam Smirna desordenadamente, arrastando com elas as populações civis. A famosa metrópole da Grécia asiática foi então incendiada. Por força de sua vitória sobre os gregos, Kemal força os Aliados a concluir um novo tratado com a Turquia, substituindo o infamante Tratado de Sèvres.

Em virtude do Tratado de Lausanne, os turcos recuperaram a plena soberania sobre os estreitos de Bósforo e Dardanelos, sobre Istambul e seu território europeu, bem como a Armênia Ocidental, o Curdistão Ocidental e a costa oriental do mar Egeu (cidades como Smirna e Éfeso). Além disso, a fronteira com o Iraque é traçada de maneira velada para ser confirmada três anos mais tarde pela Sociedade das Nações, que outorgou a título definitivo a região do Mossul ao Iraque.

Wikicommons

Mapa apresenta a redefinição das fronteiras turcas após a Primeira Guerra Mundial com Tratado de Lausanne
As Capitulações - estabelecidas em 1536 entre o sultão Soliman, o Magnífico e o rei da França François I e mais tarde estendidas a outros países europeus - são abolidas. Estas convenções outorgavam aos Ocidentais direitos especiais na Turquia, bem como o direito de velar pela sorte dos cristãos desse país.

A Turquia moderna emerge das negociações de Lausanne sob a forma de um quadrilátero onde somente o canto noroeste, com Istambul e seus arredores, pertenceriam ao continente europeu (3% da superfície do país). Cioso de seu triunfo, Mustafah Kemal iria proclamar a República Turca sobre as ruínas do velho império multicultural otomano.

Expulsos pela ofensiva turca de 1922, 1,3 milhão de gregos ortodoxos estabelecidos na Anatólia desde a Alta Antiguidade atravessariam precipitadamente o mar Egeu para serem recolhidos pela Grécia. Em contrapartida, a Grécia expulsa 300 mil turcos ou gregos islamizados.

A república laica de Kemal contava apenas com um punhado de cristãos que, dez anos antes, representavam de um quinto a um décimo da população turca. Inaugurando a prática de “limpezas étnicas”, a Turquia de Kemal Ataturk abre as portas aos nacionalismos totalitários: um Estado, uma terra, uma religião, uma língua, uma raça. Essas limpezas étnicas foram legitimadas, pela primeira vez na história da diplomacia, pelo Tratado de Lausanne de 23 de julho de 1923.
Fonte: Opera Mundi

Nenhum comentário: