sexta-feira, 22 de agosto de 2014

1791 - Eclode a insurreição de escravos de São Domingos, atual Haiti


Na noite de 22 para 23 de agosto de 1791, eclode uma violenta insurreição em São Domingos, colônia francesa das Antilhas. Escravos negros e alforriados exigem liberdade e igualdade de direitos com os cidadãos brancos.
Era o começo de uma longa e sangrenta guerra que levaria à independência da ilha: a maior das revoltas de escravos da história e a única que foi vitoriosa.
[Retrato de François Toussaint, o "libertador de São Domingos"]
Com o nome oficial de “costas e ilhas de São Domingos na América sob o vento”, a colônia era, antes da Revolução Francesa, a mais próspera das possessões francesas de ultramar graças as suas plantações de café e de cana de açúcar, além de seus numerosos escravos.
A colônia contava com cerca de 600 mil habitantes, dos quais 40 mil alforriados e 500 mil escravos negros regidos pelo Código Negro.
Os alforriados não tinham o mesmo direito dos colonos brancos. O título de ‘Monsieur’ lhes era interditado, o mesmo com certas profissões. Mas se beneficiavam de certa facilidade, eram muito dinâmicas e possuíam de um quarto a um terço dos escravos.
Devido à escassez periódica, diversas revoltas sacudiram a ilha no curso do século 18, porém foram uma a uma reprimidas. Na altura, os escravos representavam cerca de nove décimos da população, de longe mais que qualquer outra colônia.
Em 15 de maio de 1791, em Paris, a Assembleia Nacional aprova o direito de voto a certos “livres de cor”. Essa medida inquieta os fazendeiros brancos de São Domingos que passam a proclamar sua independência para preservar a ilha de ‘ideias sediciosas’ vindas da metrópole.
A decisão não satisfaz os interessados que reclamam uma verdadeira igualdade de direitos com os colonos, embora permanecendo fieis ao rei. Os negociantes brancos, que se beneficiavam da proteção aduaneira exclusiva, também se diziam fieis à monarquia, mas se opunham aos fazendeiros.
Alforriados mulatos, negociantes e fazendeiros começam a se confrontar, não hesitando a associar seus escravos à disputa e mesmo a lhes confiar armas.
Os ‘negros marrons’ – escravos que fugiram das plantações e se refugiaram na floresta – exigiam a abolição da escravatura no curso de uma cerimônia vudu no Bosque Caiman, sob a liderança do religioso Bukman, em 14 de agosto de 1791. Esta exigência desemboca numa insurreição na noite de 22 de agosto, com Bukman cercado de seus lugares-tenentes Romaine, o profeta, Hyacinthe, Georges Biassou e Jean-François.
Centenas de canaviais e cafezais são destruídos. Os brancos são massacrados. Os insurgentes negros logo recebem o apoio dos alforriados irritados com a execução de vários deles, entre os quais o célebre Vincent Ogé.
Os primeiros combates revelam o talento militar de um cocheiro de 48 anos, François Toussaint, filho de um africano de Benin e que recebeu uma educação sumária. Alforriado 15 anos antes, em 1776, pôde adquirir uma propriedade de 13 hectares e 20 escravos. Quando irrompe a insurreição, Toussaint não tarda em fazer prova de sua coragem e talentos de estrategista.
Em 28 de março de 1792, Paris estabelece uma igualdade de direitos entre todos os homens livres – salvo os escravos – mas esta nova medida chega tarde demais para conter a revolta.
Em 1793, a Espanha entra em guerra contra a França. Madri, que ocupava a parte oriental da ilha, propõe a Toussaint combater os franceses a seu lado em troca da promessa de liberdade geral. Os revoltosos aceitam e Toussaint recebe o posto de lugar-tenente geral das tropas espanholas. Para fazer frente a ele, a república francesa designa como seus comissários Sonthonax e Polverel, com um corpo expedicionário de 6 mil homens. 
Os comissários decidem em junho de 1793 libertar os escravos fieis a Paris. Mais tarde, Sonthonax se resigna a uma liberdade geral, o que ocorre em 29 de agosto de 1793: “Todos os negros e sangue-mestiços, atualmente na escravidão, são declarados livres para gozar de todos os direitos ligados à qualidade de cidadão francês...”.
Três deputados de São Domingos ganham Paris e convencem a Convenção de generalizar a abolição da escravatura ao conjunto das colônias francesas pelo decreto de 6 pluviôse Ano II (4 de fevereiro de 1794).
Diante disso, fazendeiros não hesitam em apelar aos ingleses por socorro. Três meses depois, em maio de 1794, 7.500 soldados ingleses, vindos da vizinha Jamaica, desembarcam no Haiti e tomam a capital Porto Príncipe.
Em 18 de maio de 1794, o herói negro Toussaint muda de lado e faz frente comum com os revolucionários franceses, agradecido de ter libertado os escravos. A Convenção o nomeia general de divisão em 17 de agosto de 1794.
Os ingleses em São Domingos são finalmente derrotados e dizimados por uma epidemia de febre amarela à qual os negros passam quase incólumes. Toussaint retoma o sul da ilha de seu rival Ribot, e, em outubro de 1798, recebe a rendição definitiva dos ingleses.
Toma em suas mãos, desde então, o governo da ilha e se aplica em garantir os plantadores. Com a prosperidade aflorando, obriga seus irmãos de cor a trabalhar agora como assalariados nas plantações onde outrora eram escravos.
O libertador de São Domingos proclama, em 8 de julho de 1801, a autonomia da ilha e se autonomeia governador-geral vitalício.
Napoleão, irritado, envia a São Domingos uma expedição comandada por seu cunhado, general Leclerc a fim de se livrar dos “negros dourados”. Segue-se uma guerra impiedosa ao cabo da qual São Domingos – atual Haiti – se torna totalmente independente.
Fonte: Opera Mundi

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