sexta-feira, 12 de setembro de 2014

“As mulheres do Rio Grande do Sul nunca foram chamadas de prenda”

Professor da UPF, jornalista e historiador Luiz Carlos Tau Golin palestrou sobre a mulher e o tradicionalismo gaúcho em atividade promovida pela Área das Ciências Sociais e o grupo de Estudos sobre Movimentos Sociais e Identidades Sociais (NEMIS)

Foto: Leonardo Andreoli
Professor da UPF palestra sobre as mulheres e o tradicionalismo gaúcho
Com a proximidade do 20 de setembro, o tradicionalismo gaúcho é pauta de conversa em praticamente todos os lugares. Neste contexto, a Área das Ciências Sociais e o grupo de Estudos sobre Movimentos Sociais e Identidades Sociais (NEMIS) da Universidade de Passo Fundo (UPF) promoveram a palestra “As mulheres e o tradicionalismo gaúcho”. O convidado foi o professor da UPF, jornalista e historiador Luiz Carlos Tau Golin. Em entrevista, ele criticou o machismo e o papel secundário relegado às prendas, de acordo com o tradicionalismo. Ele também comentou a simbologia envolvida no incêndio criminoso que atingiu um Centro de Tradições Gaúchas (CTG) que receberia a celebração de um casamento homossexual. Confira abaixo

Assessoria de Imprensa – Qual é o papel das mulheres dentro do tradicionalismo gaúcho?
Tau Golin – A mulher faz parte da sociedade rio-grandense onde está o tradicionalismo e que está adequado a uma cultura que chamamos tradicional em que os papéis são moralmente definidos. Nesse particular há uma visão bastante singular do lugar da mulher a partir de paradigmas que chamamos de naturalizados como se vigesse na cultura um processo evolutivo, da seleção das espécies onde o homem aparece com papel de supremacia e a mulher com um papel adequado a esse destino determinado pelos machos como entes superiores. Isso vai aparecer de várias formas na cultura como, por exemplo, a própria invenção dos homens, a partir do CTG 35 e que hoje está instituído no MTG, de a mulher não aparecer mais como um gênero feminino, mas através da alcunha de prenda. O sentido, a essência do termo prenda não é só etimológico, mas a visão do homem tradicionalista sobre a mulher. Prenda significa adereço, aquilo que é um penduricalho do homem, aquilo que o homem usa até com algumas palavras pretensamente afetivas, mas que na verdade destina esse lugar à auxiliar e jamais a possibilidade de desenvolver uma cultura na qual os gêneros e as relações sociais seja desenvolvida entre iguais, não interessando o protagonismo.


AI – O termo prenda sempre foi usado no Rio Grande do Sul?
TG 
Na história do Rio Grande do Sul as mulheres têm nome e fazem parte de um gênero e são reconhecidas como mulheres. Por exemplo, em nenhum dos nove estatutos principais do MTG aparece a palavra mulher. Aparece sempre a palavra prenda e as funções da estância, o patrão, o capataz, o espaço simbólico, a sede, o galpão, a invernada, e as funções profissionais dentro desse lugar. Então foi uma decisão masculina, em reunião, a partir de uma articulação de visão machista desses homens tradicionalistas sobre as mulheres que as denominaram como prendas. Esse é o conceito masculino sobre as mulheres, não como um ser igual que faz a história com eles, mas uma mulher que, na visão deles, no instante que perde o seu nome, deixa de ser sujeito, só pode ser um elemento agregado ao destino que os homens constroem. O termo prenda foi inventado pelo tradicionalismo, as mulheres do Rio Grande do Sul nunca foram chamadas de prenda historicamente. Então é um conceito que começou a ser transformado em realidade e produzido naturalmente e, naturalizado sendo, veio o preconceito.


AI - Nesse contexto avaliado pelo senhor, porque há mulheres que ainda se sentem inseridas?
TG
 - A cultura gaúcha e as entidades se organizam socialmente, então é um lugar de conforto para as pessoas, há uma identidade construída, pronta. Então as pessoas vão para esses espaços e é como um mundo carnavalesco. Elas, por um determinado tempo, algumas horas, vestem essa fantasia, assumem um determinado lugar, teatralizam esse espaço socialmente e, a partir dai, criam uma espécie de conforto, porque a tragédia do mundo moderno é essa, você precisa construir o seu destino. Então, o destino não está dado e naquele momento é quase uma situação de transe. As pessoas se sentem confortáveis porque elas têm uma identidade pronta como uma vestimenta, mas terão de sair dai e fazer a vida por si mesmo e essa tragédia, esse é o dilema do ser moderno.


AI - Nem todos sul-rio-grandenses seguem o tradicionalismo, mas essa ideia da mulher como adereço reflete também na parcela da sociedade que não segue o tradicionalismo gaúcho?
TG -
 A sociedade sendo machista, e com esses valores colocados, obviamente todos aqueles lugares do preconceito começam a criar uma rede de distinção, fazendo essas hierarquias. Um preconceito sempre vai fortalecendo o outro, então como o indivíduo sente a empatia social por uma determinada expressão ou comportamento ele tem dentro de si aquilo como um valor. Os preconceitos não interessam, sob o perfil estético ou comportamental. Eles criam uma certa unidade entre si que vão formando essa cultura machista, essa cultura que eu considero absolutamente abominável, de ter sobre a mulher uma concepção que é tão esdrúxula, que saindo do patamar da representação, do patamar estético, ela não tem nem como existir na sua totalidade, porque ela é tão dogmática, tão fanática, tão espúria que não tem nem como existir. Se você cria muitos espaços para esses devaneios você não tem espaço para as relações fraternas, para as relações de afetividade, de construção do humano com igualdade, se desenvolverem e aprender com as experiências dos seres humanos. Porque o humano precisa se construir a partir de seus espaços sociais, a partir dos paradigmas que eles se colocam. Então enquanto as pessoas estão vinculadas a determinadas lógicas e paradigmas, elas não tem tempo nem espaço para se construir do ponto de vista humano.


AI - Como é possível romper essa visão da mulher que se tem dentro do tradicionalismo?
TG – 
Isso que está acontecendo, toda uma juventude mesmo dentro dos CTGs e do tradicionalismo, são conquistas da sociedade e da civilização que cada vez mais não aceitam isso. Mesmo aquelas pessoas que estão hoje, a juventude brilhante e genial, que consegue depurar isso e não aceitam como dogma. Se isso vai transformar o tradicionalismo eu não sei, eu duvido muito, mas com certeza tem influência. Mas pelo menos a sociedade vai ficar melhor.


AI - O caso do incêndio no CTG que celebraria o casamento gay esse é o exemplo mais atual que temos desse preconceito?
TG 
A intolerância, o fogo é a linguagem dos fanáticos, porque a ideia do fogo é de uma coisa que depura, então toda essa impureza representada pelos gays, representada pelas mulheres querendo igualdade e serem donas do seu destino é preciso queimar no fogo sagrado da tradição. Há muito tempo isso é a cultura da violência no Rio Grande do Sul. Quando não há mais possibilidade de se resolver as coisas pelos regulamentos é a cultura da violência que começa a atuar de uma forma física e de uma forma bárbara como foi o incêndio no CTG.

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