domingo, 19 de outubro de 2014

Memórias do AHR discute a mobilização em prol da carne, confira!

 

A democracia e o “problema da carne” (Parte I)
Sábado, 27/09/2014 às 07:00, por Arquivo Histórico Regional

Era quarta-feira, 11 de novembro de 1936. Um dia de bastante trabalho para a redação do jornal. A política nacional ganhava destaque. O presidente norte-americano, Franklin Delano Roosevelt viria visitar o Brasil nos próximos dias. A Guerra Civil na Espanha seguia com intensos bombardeios à cidade de Madrid. Entre tantos acontecimentos de relevância nacional e internacional, ali, quase que entre os anúncios, dois curtos parágrafos acompanhavam o título, ‘O problema da carne em Passo Fundo’. O texto tratava de anunciar que às 20 horas do mesmo dia, aconteceria na Praça Marechal Floriano uma reunião dos ferroviários locais, onde debateriam o elevado aumento do preço da carne na cidade. Abrilhantaria o ato a banda musical da Brigada Militar.

O problema da carne foi o preço dela. A carne verde – carne fresca – respectivamente de primeira e de segunda, passou a custar 1$600 (mil e seiscentos réis) e 1$400 o quilo, substituindo o preço antigo, que era de 1$400 e 1$200. Com esse preço, a maioria dos lares da classe ferroviária, não teria acesso ao alimento. Em forma de protesto, os ferroviários decidiram não mais comer carne. Grande número dos trabalhadores aderiu ao movimento, até as 11h 30min da quinta-feira, 311 dos ferroviários da cidade assumiram, “sob palavra de honra”, o compromisso de não comer carne até segunda ordem.

A comissão, denominado “Movimento Pró-Baixa de Preço da Carne”, que defendia os interesses dos ferroviários se encontrou em reunião com o Dr. Prefeito Municipal, que após ouvir as reivindicações da classe, contou já estar em negociação para que se conseguisse o fornecimento da carne com preços que seriam estipulados pela Prefeitura, e ainda disse pretender solucionar a questão em no máximo 3 dias.

Já havia marchante – negociante de gado para o açougue – que se obrigara a fornecer a carne a preço razoável, desde que tivesse exclusividade, e por intermédio da Cooperativa. Entretanto, foi decidido seguir o protesto, uma vez que o movimento já havia conquistado a graça da população e tinha grandes chances de alcançar seus objetivos integralmente.

Ao espocar de foguetes, a população foi convidada para o “comício monstro” que ocorreu no dia 11. Grande número de pessoas compareceu ao comício, onde discursaram em nome dos ferroviários, o líder do movimento, o Sr. Sylvio Aviggi, e quem mais quisesse fazer uso da palavra, como o Sr. Diary Santos Freitas e o Sr. Mario Athayde. Todos foram bastante aplaudidos, impressionando e entusiasmando a população que ali estava presente. O povo não só aprovou o movimento dos ferroviários, como também se comprometeu com ele, dizendo que não comeriam carne a partir de então. A seguir falou o acadêmico de Direito, João Motta, que fez combate ao aumento de preço que a carne sofreu, tendo sido longamente aplaudido. Finalizando, fez uso da palavra o Sr. José Knoll, que também se solidarizou com os ferroviários.

Na manhã seguinte, os ferroviários estavam mais seguros de que o movimento surtiria efeito. Ainda mais com a palavra, já dada, do Dr. Prefeito, e a simpatia da população. E de fato o apoio popular se concretizou.

Jeferson Sabino
Graduando em História – UPF
Estagiário do AHR
* O AHR destaca que os artigos publicados nessa seção
expressam única e exclusivamente a opinião de seus autores



A DEMOCRACIA E O “PROBLEMA DA CARNE” (Parte II)
Sábado, 18/10/2014 às 07:18, por Arquivo Histórico Regional

Dois dias após a reunião dos ferroviários com o Dr. Nelson Ehlers, Prefeito Municipal, realizada no dia 11, os marchantes e a Prefeitura entraram em acordo. O Sr. Prefeito concedeu o aumento de 100 rs por quilo, no preço. A partir desse acordo, o preço da carne de primeira e de segunda, seriam respectivamente, 1$500 e 1$300. Porém, os ferroviários e simpatizantes do movimento discordaram do reajuste e prosseguiram com a greve. “Não se come carne até segunda ordem, isto é, até quando perdurarem os preços que os marchantes estipularam”, diziam os ferroviários. No mesmo dia, mais pessoas declararam apoio ao movimento ferroviário. A maioria dos hotéis da cidade excluiu de seus cardápios a carne, também em apoio ao protesto.

Segundo o setor do movimento que controlava a venda do alimento nos açougues, nesse dia, o açougueiro conseguira vender apenas 1 quilo de carne. Um novo “comício monstro” ocorre em Passo Fundo. Dessa vez, com a população em maior número apoiando a classe trabalhadora. Junto do povo, que estava de cartazes em punho, a banda musical da Brigada Militar seguiu da sede dos ferroviários até a praça, onde ocorreu o comício. Os oradores fizeram questão de relatar estatísticas sobre o abatimento do gado. Também foi tratado sobre o novo preço da carne verde, estipulado entre os marchantes – negociantes de gado para o açougue – e a Prefeitura. Afirmou-se o compromisso de não se consumir carne até que o preço fosse ajustado. Um dos oradores, o Sr. José Knoll, teve a palavra cassada por um Cel. Delegado de Polícia, ao questionar os esforços do Sr. Prefeito em resolver a situação da carne. Knoll supostamente estaria atacando verbalmente uma autoridade, o que não se permitia.

Os ferroviários e grande parte da população de Passo Fundo seguiam sem comer carne. A venda dos açougues era baixíssima. Após cinco dias de “grandiosa manifestação popular”, os marchantes cederam ao apelo ferroviário. Renegociaram, em reunião, o preço da carne verde. Por intermédio da Cooperativa, a classe trabalhadora poderia adquirir o alimento a 1$400 e 1$200. Um dia depois, a feliz notícia de última hora, Prefeitura e marchantes concordaram em estabelecer o novo preço para toda a população.

Enfim, o movimento liderado pelos ferroviários teve êxito. Foi “abraçado” pelo povo passo-fundense, que talvez, nem sofrera tanto assim com o reajuste do preço, mas juntou-se com aquela classe trabalhadora, que de fato não tinha mais condições de comprar o produto. Ou, então, muito mais gente daquele povo não aceitava adquirir o alimento por aquele preço, porém, precisavam de que algum movimento organizado tomasse a frente do protesto. E, um dos aspectos da democracia é esse: a representatividade. A sociedade precisa de sindicatos, organizações, que lhe represente.
E, a população precisa participar, se interessar, caso queira ver mudanças acontecerem. Nas próximas semanas, os ânimos se acalmaram e não se questionou mais o preço da carne verde, em Passo Fundo. Apenas uma nota saiu no jornal, informando que certo marchante, dessa cidade, havia sido multado por vender carne velha – 48 horas depois da sangria – em seu açougue. A multa, 100$000.

Jeferson Sabino
Graduando em História – UPF
Estagiário do AHR
* O AHR destaca que os artigos publicados nessa seção
expressam única e exclusivamente a opinião de seus autores

Nenhum comentário: