domingo, 2 de novembro de 2014

A estranha liberdade dos africanos

Os africanos escravizados resgatados pelas autoridades brasileiras de navios que faziam o tráfico ilegal de escravos para o Brasil após a lei de extinção do tráfico negreiro de 1831 foram oficialmente chamados de “africanos livres”.
Foram algumas apreensões nos primeiros anos após a lei, antes que as autoridades finalmente desistissem de tentar aplicá-la e outras tantas após a segunda lei de 1850, que finalmente “pegou”. Segundo a lei de 1831, deveriam ser retornados a algum porto africano, mas não foi o que ocorreu. As autoridades brasileiras os colocaram como prestadores de trabalho compulsório a concessionários particulares, por um prazo de 14 anos, que na maior parte dos casos foi ultrapassado. Na prática, suas vidas pouco se diferenciavam da dos milhões de escravizados, também ilegalmente mas não reconhecidos como tais, que formavam a maior parte dos africanos escravizados no Brasil após a independência política em 1822.
Foram cerca de mil e quatrocentas pessoas com trajetórias bem documentadas pelo Estado brasileiro, até sua emancipação definitiva, respondendo a pressões inglesas, em 1864. Um registro visual da presença, na cidade do Rio de Janeiro, dos africanos resgatados dos patachos negreiros de nome Cezar e Brilhante, apreendidos no litoral da Província Fluminense, em pleno boom da cultura cafeeira, em  1838,  está disponível para consulta no Spatial History Project da Unversidade de Stanford, nos Estados Unidos, no subprojeto “The Broke Paths of Freedom”, coordenado pelo historiador Daryle Williams, da Universidade de Maryland.
Os “africanos livres” resgatados dos Patachos Cezar e Brilhante podem ser acompanhados individualmente ou por filtros diversos, como seus nomes étnicos ou de procedência no continente africano, seus locais de residência na cidade entre 1838 e 1865, bem como pelo gênero, nome ou ocupação de seus concessionários.
O Spacial History Project procura encontrar formas criativas e inovadoras de apresentar informações históricas relacionando espaço e tempo.   Em função disso, um domínio apenas instrumental do inglês é suficiente para explorar mais esta riquíssima ferramenta virtual disponível sobre a história da diáspora africana no Brasil. O mercado de escravos da cidade do Rio de Janeiro em 1869 e um localizador de endereços históricos do Rio de Janeiro oitocentista tabém se encontram disponíveis, em projetos coordenados, entre outros, pelo historiador Zepphyr Frank, da Universidade de Stanford.
Confiram!
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