segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Memórias do AHR discute O Cruzeiro, por Marlise R. Meyrer

Revista O Cruzeiro: "aquela que tudo sabe e tudo vê"

Sábado, 15/11/2014 às 07:14, por Arquivo Histórico Regional


   Nos anos 50, a televisão ainda engatinhava no Brasil, tendo uma qualidade, tanto técnica quanto de programação, precária. Os aparelhos de televisão ainda eram muito caros e a maioria da população brasileira não tinha acesso a esse veículo. A revista O Cruzeiro era, então, o principal veículo nacional que apresentava a (s) imagem (s) da nação ao leitor brasileiro. Alguns autores a comparam com a TV Globo nos dias atuais.

      O Cruzeiro foi, durante muito tempo, o carro-chefe do primeiro conglomerado de imprensa e a primeira Rede de Comunicação instituída no país, o oligopólio formado pelos Diários Associados de propriedade de Assis Chateaubriand, cuja importância e influência sobre os rumos do país é bem conhecida. Fundada em 1928, a revista inseriu-se no contexto inicial do processo de modernização dos meios de comunicação no país, no final do anos 20,  que se consolidou nos anos 50. Porta-voz de um discurso modernizante, a revista foi a primeira do gênero de circulação nacional.

      O caráter inovador já estava presente na estratégia adotada para o lançamento da revista. Dias antes, em 05 de novembro de 1928, 4 milhões de panfletos eram jogados do alto de alguns prédios da Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, anunciando a novidade: nascia no país uma nova revista semanal ilustrada, O Cruzeiro, aquela que “tudo sabe e tudo vê”, a revista “contemporânea dos arranha-céus”. O primeiro número circula no dia 10 de novembro de 1928, em todas as cidades importantes do Brasil, além de Buenos Aires e Montevidéu.

      Nos anos 40, a revista trouxe propostas inovadoras, entre as quais a  utilização do fotojornalismo, inspirado no jornalismo norte-americano, especialmente em revistas como a Life. O grande diferencial foi a utilização da fotografia, não mais como mera ilustração, mas como construtora de um discurso visual sobre os acontecimentos.  Nesta fase a revista chegou a uma tiragem de 850.000 exemplares, transformando-se na publicação de maior circulação do país.

      Além das grandes reportagens, a revista trazia uma variedade de colunas e seções tratando de diferentes temáticas. Dedicava um amplo espaço ao público feminino em seções como “Elegância e Beleza”, “Lar, Doce Lar”, “Da mulher para a Mulher” e “Mundanismo”. Também o humor era um setor importante na revista que revelou cartunistas hoje famosos, como Millor Fernandes, Alceu Penna, Ziraldo, entre outros, criando personagens que se institucionalizaram na cultura nacional como o “Amigo da Onça”, de Péricles. Publicava, também, contos e novelas. A revista contava, entre seus colaboradores, com intelectuais renomados como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Austragésilo de Athayde, Oswald de Andrade, Nelson Rodrigues, dentre outros.

      O Cruzeiro, assim, marcava a ruptura com as formas editoriais tradicionais que tinham no discurso verbal a fonte principal da informação, substituindo-as pela linguagem fotográfica, fazendo dos repórteres fotográficos os novos heróis do jornalismo, eram, como afirma Muniz Sodré: “verdadeiros cavaleiros andantes em busca do Santo Graal da Sensação, indo buscar o assunto na fonte, em qualquer ermo do Brasil e do mundo".

Marlise Regina Meyrer
Professora PPGH/UPF
* O AHR destaca que os artigos publicados nessa seção
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