terça-feira, 13 de janeiro de 2015

1953: Farsa da conspiração de médicos em Moscou

"Prisão de médicos sabotadores" foi a manchete publicada em letras garrafais pelo "Pravda", jornal oficial do Partido Comunista, em 13 de janeiro de 1953. Médicos eram culpados de assassinar personalidades soviéticas.
Josef Stalin em foto de fevereiro de 1950
Segundo a historiadora Jutta Petersdorf, do Instituto do Leste Europeu da Universidade Livre de Berlim, a notícia divulgada pelo jornal Pravda baseava-se num relatório da KGB, o serviço secreto da antiga URSS. "Os médicos do famoso hospital do Kremlin, de repente, foram transformados em delinquentes, pessoas agressivas, inimigas da URSS e de Stalin pessoalmente. Entre os acusados encontravam-se alguns russos, mas a maioria deles era judeus", explica Petersdorf.
Não apenas o líder soviético Josef Stalin odiava os judeus, mas existia também um secular antissemitismo latente na população. Por isso, segundo Jutta Petersdorf, não foi difícil para Stalin usar os antigos preconceitos como instrumento de repressão.
Onda de repúdio
"O espantoso foi ver a repercussão que essa campanha de manipulação teve junto à população. Analisando a imprensa da época, nota-se que, em todo o território da URSS, ocorreu uma onda de repúdio aos médicos judeus, culpados do assassinato de extraordinárias personalidades do povo soviético", afirma a historiadora.
De 1936 a 1938, Stalin submeteu o país à primeira grande faxina ideológica. Dezenas de milhares de russos, entre eles fiéis membros do PC, caíram em desgraça. Foram assassinados por supostas conspirações antissoviéticas ou sumiram durante anos ou para sempre nos gigantescos campos de concentração, os temíveis Gulags, nas regiões mais isoladas do grande império. Em 1948, apenas três anos após a vitória sobre a Alemanha nazista, começou uma nova onda de perseguição. A essa altura paranóico, Stalin via inimigos por toda parte.
Má interpretação de exame
O estopim para a manchete do Pravda de 13 de janeiro de 1953 foi a calúnia de uma médica do hospital do Kremlin. Lydia Timashuk entrou para a história ao denunciar que um colega seu, preso mais tarde, teria de propósito interpretado erroneamente o exame cardiológico de um companheiro de Stalin, para deixá-lo morrer.
Segundo Petersdorf, "esse motivo foi vinculado à morte de várias outras lideranças soviéticas, inclusive Gorki, que também havia sido envenenado por médicos. Para Stalin, portanto, estava claro que todos os médicos eram culpados, não poupando sequer seu médico pessoal, altamente condecorado".
Para atiçar a revolta da população, os líderes do Kremlin divulgaram que, atrás dos "assassinos em bata branca" escondia-se a organização de assistência norte-americana e judaica Joint. A mando dessa organização, os médicos não só teriam cometido assassinatos como também espionado para os serviços secretos britânico e norte-americano. Profissionais de renome nacional e internacional, eles foram acusados de "entregar" o Kremlin aos norte-americanos e ingleses. "Eram, portanto, suposições completamente loucas", diz Petersdorf.
Stalin morreria em março
No último minuto, os médicos ainda conseguiram escapar do processo e da anunciada execução na Praça Vermelha em Moscou. Em 5 de março de 1953, menos de dois meses depois da denúncia supostamente espetacular, Stalin morreu de hemorragia cerebral, aos 73 anos.
Os médicos ainda vivos foram libertados. E os algozes stalinistas esconderam rapidamente a chamada Declaração Judaica, elaborada pouco antes da morte do tirano para ser publicada na capa do Pravda logo após a execução dos professores de Medicina.
Ela previa a transferência dos judeus das áreas industriais da URSS para campos de concentração da Sibéria e do Cazaquistão. Ali eles estariam "protegidos e poderiam executar trabalhos úteis ao povo soviético e escapar da compreensível ira provocada pelos médicos traidores", dizia o documento ditado por Stalin.
  • Autoria Gerda Gericke (gh)
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