quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

1957 – Começa a Batalha de Argel

Filme de Gillo Pontecorvo, que mistura realidade e ficção, abordou detalhes do conflito na Argélia


Atentados como o do Milk Bar, em 1956, levaram a guerra para o centro de Argel
Em 7 de janeiro de 1957, o governo francês confia ao general Jacques Massu plenos poderes de polícia sobre a Grande Argel, que contava com 800 mil habitantes dos quais metade era muçulmana. O general e seus 6 mil paraquedistas tinham a missão de acabar com o terrorismo neste aglomerado populacional.

Dois anos antes, em 20 de agosto de 1955, os independentistas argelinos desencadearam uma insurreição que se tornou sangrenta e que levou a uma brutal repressão do governo francês.

Em 30 de setembro de 1956, os espetaculares atentados do Milk Bar e da Cafeteria caíram como um raio. A guerra não se confinaria mais nas áreas fronteiriças e nas montanhas, mas atingiria doravante o coração de Argel.

Revigorada pelo impacto midiático desses atentados, a Frente de Libertação Nacional, que dispunha de cerca de 5 mil militantes, não mais hesita em se ligar estreitamente com a população da cidade. Apela às mulheres de feições europeias a transportar as armas, transmitir mensagens e até mesmo colocar bombas.

Com o fim de tranquilizar uma opinião pública paralisada de medo pelos atentados que matavam e mutilavam ao acaso, o prefeito de Argel e o governo do socialista Guy Mollet se remetem em desespero de causa ao general Massu.

A partir de 7 de janeiro de 1957, os paraquedistas passam a acossar os terroristas em toda a aglomeração e a praticar métodos cruéis de tortura para fazer falar as pessoas suspeitas de esconder bombas e armamento.

A imprensa não tarda em publicar testemunhos de pessoas que denunciam a banalização dos procedimentos indignos: torturas por choque elétrico, suspensão pelas pernas, afogamento, a execução sumária de suspeitos, julgamentos expeditos pelos tribunais militares, centros de detenção clandestinos, desaparecimentos, etc.

Uma comissão de inquérito presta um relatório estarrecedor em 21 de julho de 1957. O diário Le Monde o publica, o que lhe valeu ter a edição sequestrada e os exemplares já distribuídos, recolhidos.
Os responsáveis políticos e a grande maioria dos cidadãos, tanto à direita como à esquerda, estavam já bem informados do que se estava passando na Argélia. No entanto, preferiram calar-se diante das atrocidades dos militares, que não suspendiam as torturas, para eles o único meio de obter informações a tempo sobre a localização de pessoas e bombas.

Wikicommons
Após o atentado da Corniche, que vitima vários jovens, em 9 de junho de 1957, o coronel Yves Godard assume o posto do coronel Marcel Bigeard. Ele privilegia doravante a infiltração nas redes em lugar da tortura. Desse modo, em 24 de setembro de 1957, seus paraquedistas botam a mão em Yassef Saadi, 28 anos, principal organizador dos atentados em Argel. Suas confissões, debaixo de diabólicas torturas, permitiram desmantelar as redes.

[Ao serem presos, defensores da libertação argelina eram torturados para passarem informações ao governo francês]

Nove meses depois de ter recebido plenos poderes, o general Massu podia se vangloriar de ter ganhado a “Batalha de Argel”, porém ao preço de 3.024 desaparecimentos de suspeitos.

Para os sucessores de Guy Mollet à testa do governo, o momento parecia favorável a uma negociação com os moderados do campo inimigo. Foi então que os franceses da Argélia e certos oficiais das forças armadas fizeram um apelo ao general de Gaulle na esperança de evitar o abandono da Argélia.

Na Argélia, os franceses utilizaram com proveito a infiltração. Seu principal êxito nesse domínio foi a ‘bleuite’, nome estranho derivado do azul das jardineiras ostentadas à guisa de uniforme pelos especialistas da guerra contrarrevolucionária dirigida pelo capitão Paul-Alain Léger.

No final dos anos 1950, uma operação de manipulação montada pelos serviços de inteligência franceses desencadeou um expurgo devastador no seio do Exército de Libertação Nacional. Em seu livro “É Preciso Abater a Lua”, Jean-Paul Mari narra esse episódio, um dos mais obscuros da Guerra da Argélia.

Em 1957, durante a Batalha de Argel, o capitão Léger, com o apoio do coronel Godard, infiltra-se na ‘willaya’ III – nome dado às províncias argelinas -  de Amirouche, exército insurgente das redondezas de Argel com os prisioneiros que haviam mudado de lado sob coação.

Valendo-se de falsas mensagens, o capitão ajuda seus protegidos a ascender aos postos de responsabilidade no seio do inimigo. Logo se põem em condições de prestar informações sobre as ações guerrilheiras em Argel e até de suspendê-las. Iriam contribuir para a prisão do organizador dos atentados, Yassef Saadi.

Quando o estratagema estava a ponto de ser descoberto, o capitão Léger semeia a confusão no inimigo difundindo falsas acusações. Amirouche, enlouquecida, tortura seus próprios companheiros e estes, na esperança de serem poupados, declinam nomes ao leu. Esta selvagem purga faria 2 mil vítimas seviciadas nas fileiras da ‘willaya’.

A Batalha de Argel, filme de Gillo Pontecorvo (1965) que conquistou público e crítica em todo o mundo, tem como fio condutor a história de integrantes da Frente de Libertação Nacional (FLN), Ali-la-Pointe e seus companheiros que resistem na Casbah, o maior bairro popular da capital Argel. O filme apresenta um período desta luta, marco histórico no processo de libertação de colônias europeias na África. A ação se passa entre 1954 e 1957 e o diretor, que mistura ficção e fatos reais, trata com veracidade a resistência argelina e a violência do exército francês.
Fonte: Opera Mundi

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