quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

1964 - Stanley Kubrick estreia Dr. Fantástico nos cinemas


Popularidade do filme foi uma evidência da mudança de atitude diante das armas atômicas e da doutrina da dissuasão nuclear
A obra-prima do humor negro de Stanley Kubrick, Dr. Fantástico (Dr. Strangelove ou Como Aprendi a Deixar de me Preocupar e Passar a Amar a Bomba) estreia nos cinemas debaixo de verdadeira aclamação tanto da crítica, quanto do público no dia 29 de janeiro de 1964. A popularidade do filme era uma evidência da mudança de atitude diante das armas atômicas e da doutrina da dissuasão nuclear.
Wikimedia Commons

Filme do diretor Stanley Kubrick critica Guerra Fria por meio do humor absurdo
O filme começa com um general enlouquecido, Jack D. Ripper (Sterling Hayden), ordenando um ataque nuclear não autorizado à União Soviética. Ele tem certeza de que os comunistas estão envenenando a água potável do mundo inteiro, um boato muito comum nos EUA, durante os anos 1950. Um preocupado ajudante de ordens, o capitão Mandrake (Peter Sellers), tenta impedir o fato, mas não consegue. Quando descobre o problema, o presidente dos EUA, Merkin Mufflin (Peter Sellers de novo, careca e engraçado), já não pode fazer muita coisa. Ele reúne o Conselho de Guerra e ouve, estupefato, um resumo da situação, da boca do alarmado general Buck Turgidson (George C. Scott): o avião com a bomba atômica está no ar, incomunicável, e vai cumprir a missão a qualquer custo. A cena em que Turgidson explica a situação a Mufflin é simplesmente perfeita. Scott, um ator talentoso, consegue ser hilariante sem deixar de se levar a sério.
Peter Sellers, como não poderia deixar de ser, brilha no papel triplo, com diferentes sotaques e caracterizações. Seu melhor momento é o alucinado personagem-título, um antigo oficial nazista promovido a conselheiro do presidente dos EUA. Óculos escuros, sorriso maníaco, o sujeito usa uma luva negra na mão direta, uma mão que tem vida própria e teima em fazer saudações nazistas, à medida que o longa-metragem chega ao clímax e enfileira uma seqüência genial de cenas antológicas.




É um clímax atrás de outro: o embaixador russo tentando fotografar a Sala de Guerra, mesmo sabendo que o mundo vai acabar em questão de minutos; o oficial caubói T.J. King Kong (Slim Pikens) que “monta” a bomba como a um cavalo; as tomadas de bombas explodindo ao som da lírica canção We’ll Meet Again; o presidente norte-americano Merkin Muffley ligando desesperadamente para o seu colega soviético. O líder russo informa a Muffley que um ataque atômico à União Soviética desencadearia automaticamente a terrível “máquina do dia do Juízo Final”, o que faria desaparecer totalmente a vida sobre o planeta; o conselheiro-chefe para a política externa de Muffley, o Dr. Strangelove, assegurando ao presidente e aos altos funcionários de que nem tudo está perdido: sugere que eles podem sobreviver mesmo com a eclosão da “máquina do dia do Juízo Final” refugiando-se nas profundezas dos túneis das minas.


Uma análise minuciosa do personagem Dr. Fantástico indicava que provavelmente era uma composição de três personalidades: Henry Kissinger, um cientista político que havia escrito sobre a estratégia da dissuasão nuclear; Edward Teller, um cientista chave no desenvolvimento da bomba de hidrogênio; Werner von Braun, o cientista alemão, figura de proa na tecnologia de mísseis espaciais. 
 
Uma análise menos profunda, porém, seria necessária para apreender as investidas satíricas de Kubrick sobre a política norte-americana e soviética de armazenamento nuclear e retaliação maciça. As estocadas do filme a algumas das crenças sagradas centrais da "estratégia de defesa da América" tocaram em fibras sensíveis do povo norte-americano. Particularmente após a aterrorizante Crise dos Mísseis de Cuba de 1962 – quando a aniquilação nuclear parecia uma possibilidade bastante real – o público manifestou-se crescentemente disposto a questionar a dependência das nações às armas nucleares.
Fonte: Opera Mundi

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