quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Historiador diz que arquivos secretos da Guerra do Paraguai são 'míticos'

Para ele, Itamaraty deve falar sobre tema e evitar 'relações envenenadas'.
Solano López declarou combate contra o império brasileiro há 150 anos.
Raquel MoraisDo G1 DF

Mesmo desconfiando da existência de documentos secretos da Guerra doParaguai, o jornalista especializado em fatos históricos Moacir Assunção defende que o Itamaraty se posicione oficialmente a respeito das “lendas” do maior e mais sangrento conflito da história brasileira. A declaração de início do combate, que ocorreu entre 1864 e 1870 e dizimou aproximadamente 90% da população paraguaia masculina que tinha acima de 20 anos, completa 150 anos neste sábado (13). O G1 procurou o Ministério das Relações Exteriores para comentar o tema por telefone e e-mail, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem.


“Acho que eles deviam efetivamente já resolver essa questão de uma vez, dizendo o que tem e o que não tem, o que existe e o que não existe. E acho que o Brasil poderia devolver isso e qualquer outra coisa que tivesse, até porque a Argentina e o Uruguaijá o fizeram. Não faz muito sentido manter isso no Brasil se isso não nos pertence. É saudável e evita que essa coisa continue envenenando as relações entre os países”, afirmou Assunção.

O jornalista conta que se interessa pelo tema desde os tempos de colégio e que há quase 20 anos se dedica a pesquisá-lo de forma mais sistemática. Ele esteve no Paraguai três vezes, entre 1997 e 1999, e também passou pela Argentina e Uruguai (países que junto com o Brasil compunham a Tríplice Aliança), além de Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul – estados que serviram de cenário para o embate. Nesses locais, Assunção se dedicou a ler livros, arquivos e jornais de época.

“Eu já acreditei que esses documentos existissem, mas hoje, com base em todas as minhas pesquisas e no que converso com outras pessoas que também pesquisam o tema, eu não acredito mais. Se existirem efetivamente, não estão catalogados como da Guerra da Paraguai. A essa altura do campeonato todo mundo já sabe o que aconteceu”, disse.

“A gente vê que no fim das contas esses documentos são meio míticos. Eles possivelmente não existem, mas, se existirem, eles estão muito bem escondidos, e eu não acredito que exista algo totalmente inédito. O que a gente encontrou é talvez sobre a definição das fronteiras, algo de que o Itamaraty nem gosta de falar, porque é um tema sensível”, completou o pesquisador.

As questões são abordadas no livro “Nem heróis, nem vilões”, que traz também entrevistas com a bisneta de Solano López e intelectuais lopistas e anti-lopistas (favoráveis e contrários ao ditador paraguaio). Há ainda bastidores de episódios importantes do conflito, como Curupaiti, a maior derrota aliada, que quase levou ao fim do conflito. Assunção defende que não há “bonzinhos ou mauzinhos” e a fome e as doenças que atingiram o Paraguai mataram mais gente que o próprio combate.

Paraguaios mortos na guerra, em foto de 1866 (Foto: Fundação Biblioteca Nacional/Divulgação)

Ainda assim, para ele, a devolução de possíveis documentos e quaisquer outros itens que ainda possam estar sob poder do governo brasileiro – a dívida paraguaia foi perdoada em 1943 no governo de Getúlio Vargas e os arquivos conhecidos como “coleção Rio Branco”, entregues em 1981 – representariam um ato de grandeza. Uma das solicitações do país vizinho é a devolução do canhão “El Cristiano” (o cristão, em português), exposto no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

A arma de 12 toneladas foi feita do metal dos sinos das igrejas da capital do Paraguai e usada durante dois anos para conter o avanço das tropas brasileiras sobre a cidade de Assunção. O Ministério da Cultura afirmou em 2010 que o canhão seria devolvido, mas na época ainda não havia previsão para isso. Em 2013, o presidente do país voltou a exigir a entrega do item.

“O Paraguai é membro do Mercosul, é um parceiro comercial importante e é o segundo país com maior número de brasileiros morando fora, só perde para os Estados Unidos”, diz o pesquisador. “O momento agora é outro. O Paraguai é um outro Paraguai, completamente diferente daquele período, e acho que faria bem devolver.”

Desencontros diplomáticos
Não existe consenso entre os historiadores sobre as motivações para o ditador Solano López declarar a guerra. Para Assunção, o paraguaio foi convencido de que o Brasil queria se apossar dos territórios dele e dos uruguais.
A Guerra do Paraguai é a guerra contra o inimigo errado, ao lado do aliado errado. Essa é a frase de um historiador famoso, que diz a verdade. Acabaram atacando o aliado e ficando ao lado do inimigo de antes" Moacir Assunção, jornalista especializado em fatos históricos

“Isso não fazia o menor sentido. A guerra acabou sendo motivada por uma série de desencontros diplomáticos. López acabou comprando uma guerra com os dois países mais importantes da região [Brasil e Argentina]. A guerra acaba tomando uma proporção que não se imaginava. O Brasil não pretendia invadir o Paraguai. O Brasil precisava manter o Paraguai, porque era um anteparo à Argentina, que era o grande inimigo do Brasil naquele momento”, afirma.

O pesquisador defende que essa “confusão” acabou invertendo as relações entre os países da época. “A Guerra do Paraguai é a guerra contra o inimigo errado, ao lado do aliado errado. Essa é a frase de um historiador famoso, que diz a verdade. Acabaram atacando o aliado e ficando ao lado do inimigo de antes.”

Solano López declarou guerra ao Brasil em 13 de dezembro de 1864 e, em seguida, invadiu a região que hoje corresponde a Mato Grosso do Sul. No mesmo ano, o Brasil havia invadido o Uruguai e destituído o presidente.

O confronto terminou somente com a morte do líder paraguaio, em março de 1870, quando foi ferido por um golpe de lança e atingido com um tiro de fuzil. As consequências foram nefastas: além de ser saqueado, ter a população dizimada e toda a infraestrutura destruída, o Paraguai ainda teve de pagar uma dívida de guerra ao Brasil até 1943.

Tombamento
Na região do Pantanal de Mato Grosso do Sul, dois fortes erguidos na época da Guerra do Paraguai, que mantêm até hoje a arquitetura original, foram tombados pelo Patrimônio Histórico e agora são protegidos por lei.

Forte Junqueira, no Mato Grosso do Sul, erguido na época
da Guerra do Paraguai e que mantém até hoje a arquitetura
original (Foto: TV Morena/Reprodução)

O Forte Junqueira, na margem direita do rio, mantém intactos os dez canhões instalados para fazer a defesa da região. A estrutura é uma das cinco fortificações erguidas após o conflito porque os militares consideravam a região desprotegida e suscetível a novas invasões.

Também foi considerada patrimônio nacional a Base Naval em Ladário. Trata-se do único complexo da Marinha no Mato Grosso do Sul. O portal que dá acesso à base mantém o mesmo formato desde 1873, assim como os 15 canhões, intactos, localizados na muralha da edificação na mesma posição da época em que foram instalados.

O tombamento, realizado pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, é um ato administrativo para preservar bens de valor histórico, cultural, arquitetônico, ambiental e também afetivo da população, impedindo assim a destruição ou descaracterização das estruturas.

Fonte: G1

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