quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Pforzheim, vítima esquecida da Segunda Guerra

Em termos proporcionais, bombardeio aliado sobre a pequena cidade no sudoeste da Alemanha foi pior até que os de Dresden e Hamburgo. Passados 70 anos, moradores se esforçam para que tragédia não seja esquecida.
Durante 22 minutos ininterruptos, os sinos tocam em Pforzheim, no sudoeste alemão. Milhares de moradores se reuniram nesta segunda-feira (23/02) para recordar o bombardeio de 1945. Nesse dia, em apenas 22 minutos a cidade foi praticamente eliminada do mapa pelos projéteis lançados pelos aviões dos Aliados.
Setenta anos depois, o acontecimento ainda emociona profundamente os habitantes da localidade a cerca de 40 minutos de carro de Stuttgart. No centro da Praça 23 de Fevereiro, eles depositam velas, formando uma pomba.
"Para Deus, para o meu povo e a minha cidade", diz a septuagenária Ulla, ao ser indagada para quem é a homenagem. "Eu era pequena demais para lembrar, mas sei, pela minha família e pelo que veio depois, o quanto esse dia nos machucou."
"Estamos aqui para recordar", explica Larissa, que veio com seis amigas. "É isso, não se precisa dizer mais nada", conclui, ainda ao som dos sinos, com seriedade insólita para uma adolescente de 17 anos.
1.500 toneladas de bombas destruíram Pforzheim em apenas 22 minutos
"Apagada do atlas"
Um ano após o fim da Segunda Guerra Mundial, o autor e médico alemão Alfred Döblin escrevia numa carta: "Desaparecida da face da terra, raspada, reduzida a pedacinhos. Nenhuma alma humana mais lá. Pforzheim, você pode apagá-la do atlas."
Entre as 19h50 e as 20h12 do dia 23 de fevereiro de 1945, 379 aviões da Força Aérea britânica lançaram sobre a localidade 1.575 toneladas de bombas altamente explosivas e incendiárias. O mar de chamas resultante é considerado, hoje, um dos mais devastadores da história militar.
Segundo as estatísticas oficiais, 17.600 pessoas morreram, dezenas de milhares ficaram feridas. A praça do mercado e o núcleo histórico foram aniquilados e completamente despovoados. No total, 80% da arquitetura então existente foram reduzidos a escombros.
Em termos proporcionais, esse foi o pior caso de destruição pelos Aliados ao fim da Segunda Guerra. Mas, enquanto os bombardeios de Dresden e Hamburgo foram bem documentados e permanecem na consciência coletiva, a pequena Pforzheim é raramente lembrada, na Alemanha ou no exterior.
Importância estratégica
Publicado em 1943 e 1944 pelo Ministério de Economia de Guerra do Reino Unido, o assim chamadoBomber’s Baedeker era um guia da importância econômica de diversas cidades alemãs, com vista ao bombardeio estratégico. Nele, Pforzheim aparecia na 57ª colocação, entre 101 localidades avaliadas.
A cidade tinha 80 mil habitantes, não produzia munição nem possuía qualquer tipo de indústria pesada, fora uma fábrica de tubos de metal da Metallindustrie Richter.
No entanto, ela abrigava numerosas instalações de manufatura técnica, que produziam, entre outros, lentes para periscópios e componentes para submarinos. Além disso, era um importante nó ferroviário e rodoviário na região de Baden.
Wallberg, o "Monte Entulhino" é lembrança constante dos bombardeios de 1945
Por que Pforzheim?
A pergunta "por que Pforzheim" irrita Anton, um dos participantes da vigília: "Você acha mesmo que alguém se importa com isso? Essa é uma questão para os políticos e estrategistas da época, para historiadores e jornalistas."
"É uma pergunta para gente que faz as perguntas erradas. O entulho do bombardeio ainda está aqui, num monte fora da cidade", complementa, referindo-se ao Wallberg, de 40 metros de altura, apelidado pela população de "Monte Scherbelino" (algo como "Monte Entulhino").
Num outro monte próximo, denominado Wartberg, cerca de cem neonazistas e ativistas de extrema direita se reúnem numa contramanifestação à vigília oficial. Isolados dos demais manifestantes e sob a vigilância de mil policiais, eles evocam as vítimas alemãs dos bombardeios aliados.
Do outro lado, o participante Manfred comenta, visivelmente comovido: "Foi no ódio que tudo isso começou. E ele causou a destruição da nossa cidade, 70 anos atrás. Você acha que eu vou ficar parado, deixar neonazistas marcharem por aqui? Nunca mais vamos deixar o ódio nos destruir."
Fonte: DW

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