domingo, 14 de junho de 2015

1986 - Morre o escritor argentino Jorge Luis Borges


Nascido em Buenos Aires em 24 de agosto de 1899, um dos escritores mais importantes do século XX vinha de uma família que contribuiu para a independência do país

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo, escritor, poeta, crítico literário, tradutor e ensaísta argentino morre em Genebra em 14 de junho de 1986.
Nascido em Buenos Aires em 24 de agosto de 1899, Jorge Luis Borges procedia de uma família de próceres que contribuíram com a independência do país. Ele cresceu no bairro Palermo tendo como companheira de brinquedos sua irmã Norah.
Aprendeu a ler inglês com sua avó Fanny Haslam. Com apenas 6 anos confessou a seus pais o desejo de ser escritor. Aos 10 anos começou já a publicar, não um texto próprio, e sim uma brilhante tradução ao castelhano de O príncipe feliz, de Oscar Wilde.
Quando eclodiu a Primeira Guerra Mundial a família estava radicada na neutra Suíça, em Genebra. Adolescente, devorava as obras francesas desde os clássicos como Voltaire ou Victor Hugo até os simbolistas e descobria, maravilhado, o expressionismo alemão de autores como Gustav Meirink.
Em 1918, a família passa a residir na Espanha, primeiro em Barcelona e depois em Mallorca, onde publicou seus primeiros versos em que exaltava a Revolução Bolchevique sob o título Somos Vermelhos.
De regresso a Buenos Aires, fundou em 1921 com outros jovens a revista Prismas e, mais tarde, a revista Proa.
O primeiro livro de poemas foi Fervor de Buenos Aires (1923), em que dá uma visão pessoal da cidade, de evidente cunho vanguardista. Em 1925 publicou Luna de enfrente  e, 3 anos depois, Cuaderno San Martín, poemas em que aparece com insistência seu olhar sobre as “margens” urbanas.
Em 1930, publicou Evaristo Carriego, um título essencial na produção borgeana. A um tempo em que traça a biografia de Evaristo, poeta popular, se detém na invenção e narração de distintas mitologias portenhas, como a poética descrição do bairro Palermo.
Em 1932, publica Discusión, livro que reúne ensaios em que se põe de manifesto não só a agudeza crítica de Borges. Este volume integra capítulos instigantes como “El escritor argentino y la tradición", "El arte narrativo y la magia" ou "La supersticiosa ética del lector".
Em 1935, aparece Historia universal de la infamia, com textos que o próprio autor qualificava como exercícios de prosa narrativa. Este volume inclui um de seus contos mais famosos, "El hombre de la esquina rosada".
Durante os anos 1930, sua fama cresceu na Argentina, porém sua consagração internacional só chegaria muito depois. Exercia assiduamente a crítica literária, traduz com precisão Virginia Woolf, Henri Michaux e William Faulkner. Durante as festas de Natal de 1938 sofre um grave acidente devido a sua progressiva falta de visão que quase lhe custou a vida.
Ao agudizar sua cegueira, teve de resignar-se a ditar seus contos fantásticos. No mesmo ano, assiste como testemunha ao casamento de Silvina Ocampo e Bioy Casares, publicando com eles uma esplêndida  Antologia da literatura fantástica e no ano seguinte, Antologia poética argentina.
Em 1942, Borges e Bioy, sob o pseudônimo de H. Bustos Domecq, entregam para publicação graciosos contos policiais que intitulam Seis problemas para don Isidro Parodi. No entanto, sua criação narrativa não obtém o êxito desejado e inclusive fracassa ao concorrer ao Prêmio Nacional de Literatura.
Em 1945 se instaura o peronismo na Argentina e sua mãe e irmã são detidas por fazerem declarações contra o novo governo. Por ter assinado manifestos antiperonistas, o governo o demitiu de seu posto de bibliotecário e o nomeou inspetor de aves e coelhos dos mercados. Renunciou a ele passando a ganhar a vida como conferencista. Mostrou-se um notório oposicionista ao regime peronista e nesse período publicou o seu livro mais conhecido, O Aleph (1949) Além de prosseguir trabalhando em novas antologias de contos e novos volumes de ensaios antes da queda do peronismo em 1955.
O novo governo que surgiu o nomeou, devido ao seu grande prestígio literário, diretor da Biblioteca Nacional ao mesmo tempo em que era eleito para a Academia Argentina de Letras. Em seguida reconhecimentos públicos se sucedem: Doutor Honoris Causa pela Universidade de Cuyo, Prêmio Nacional de Literatura, Prêmio Internacional de Literatura Formentor, Comendador das Artes e das Letras na França, Grande Prêmio do Fundo Nacional das Artes da Argentina, Prêmio Interamericano Cidade de São Paulo.
Inesperadamente, em 1967, casa-se com uma antiga amiga de juventude, Elsa Millán, casamento de todo modo menos tardio e surpreendente quando, já octogenário, casa-se com Maria Kodama, sua secretária, muito mais jovem, a quem nomearia herdeira universal.
Borges, cuja voz ressoava internacionalmente, saudou com alegria a derrocada de Maria Estela de Peron em março de 1976 e a ascensão da Junta Militar e com ela uma sanguinária ditadura. Provavelmente logo se arrependeu quando em companhia de Ernesto Sabato se entrevistou com o ditador, querendo saber do paradeiro de intelectuais desaparecidos.
O mal, todavia, já estava feito. Granjeou fortes inimizades na Europa, a ponto de o acadêmico sueco Artur Ludkvist manifestar publicamente que ele jamais receberia o Prêmio Nobel por razões políticas.
A concessão do Prêmio Cervantes compensou em parte nunca ter recebido o Nobel. Borges era sem dúvida o escritor argentino com maior projeção internacional. É praticamente impossível pensar-se na literatura do século 20 sem sua presença, fato reconhecido não só pela crítica, mas também pelas diversas gerações de escritores.
Borges foi o criador de uma cosmovisão bastante singular, baseada num original modo de entender conceitos como os de tempo, espaço, destino ou realidade. Suas narrações e ensaios se nutrem de complexas simbologias e de uma poderosa erudição, produto da leitura de diversas literaturas europeias, em especial a anglo-saxão: Shakespeare, De Quincey, Kipling ou Conrad são referências permanentes em sua obra, além de seu conhecimento da Bíblia, da Cabala judaica, a literatura clássica e a filosofia.
Fonte: opera Mundi

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