domingo, 18 de outubro de 2015

"O Brasil está na vanguarda de um novo processo histórico"

Dados da Organização Internacional para Migração (OIM) revelam que mais de 600 mil  migrantes e refugiados, a maioria sírios,  já chegaram à Europa em 2015. Por outro lado, o número de pessoas que perderam a vida, principalmente na travessia do Mar Meditarrâneo, ou estão desaparecidos, é de 3.100. Deste total, pelo menos 69% deles desembarcam na Grécia. São cerca de 80 embarcações diárias. A Itália é o segundo país mais procurado para os desembarques. Motivada pelos conflitos na Síria e no Afeganistão, e a violência na Eritreia, a onda de imigrantes já é considerada a maior desde Segunda Guerra Mundial. Em entrevista ao ON, o professor da Universidade de Passo Fundo, João Carlos Tedesco, graduado em filosofia,  mestre em Sociologia e doutor em Ciências Sociais, e que investiga o tema das migrações internacionais, analisa o fenômeno a afirma que 'os imigrantes revelam um mundo em movimento e tesão, demonstrando a impossibilidade de se viver em determinados territórios'. Em relação ao papel do Brasil neste processo, disse que o país está na vanguarda de um novo processo histórico. 

ON - A onda de imigração já é considerada a maior desde a segunda guerra mundial. Há uma estimativa de que somente este ano, pelo menos 600 mil imigrantes tenham cruzado o Mediterrâneo em direção à Europa. Alguns países como a Alemanha e Áustria estão mais receptivos, enquanto outros fecham suas fronteiras.  A Comissão Europeia anunciou o recebimento de 160 mil refugiados. Qual sua avaliação sobre a maneira de como a Europa está enfrentando este desafio?
João Carlos Tedesco -  O fenômeno imigratório na Europa não é novo; alguns países como a Itália, Espanha, França e Alemanha já o tem em sua dimensão histórica; porém, o que aumentou nos últimos meses é a intensidade, a origem diversa e a inserção em países com pouca trajetória e capacidade de absorção como é o caso da Grécia, Hungria, Malta,Turquia, dentre outros. Esse processo estratégico dos imigrantes em adentrar para países pouco preparados e com reduzida condição de absorção é justamente para pressionar os maiores, chamar a atenção do mundo. A grande questão é que tudo isso aconteceu num período em que vários países de maior absorção de fluxos estavam acordando no aprofundamento de legislações restritivas (quotas reduzidas de entradas, operações marítimas, controle nos espaços tradicionais de saída, principalmente na Líbia, ampliação de centros de detenção e canais de expatriamento, etc.). A Europa sempre foi desafiada para solucionar essas tensões e conflitos em regiões do mundo (África, por ter sido colonizadora em vários países e, porque, alguns deles são seus vizinhos, como é o caso da parte norte, o Magrebe, onde há muitos europeus, negócios e interesses político-religiosos); ela sempre vendeu para o mundo as representações de civilização, hospitalidade, além da extrema necessidade de imigrantes no cenário do mundo laboral; sem esquecer, também, o peso de consciência por ter colonizado e empobrecido regiões e legitimado governantes ditadores que se eternizaram no poder como é o caso do atual da Síria, epicentro dos conflitos atuais e das emigrações, e de vários outros como na Líbia, no Senegal, na Nigéria, no Mali etc.
 

ON -  A tendência é que esse fluxo migratório prossiga em razão dos conflitos. A Europa já enfrenta uma situação de crise. Que impactos do ponto de vista humanitário e econômico a chegada destes refugiados pode provocar nos países do Velho Mundo?
João Carlos Tedesco -  Os imigrantes revelam um mundo em movimento e tensão; demonstram que em determinados territórios, não se pode mais viver; os refugiados políticos, religiosos e ambientais são a expressão de uma realidade que se intensifica cada vez mais. Esse tipo de emigração deve receber um tratamento especial, alimentado por questões consideradas humanitárias, assim como os que são vítimas do empobrecimento econômico de regiões e países.  A Europa ocidental (alguns países mais ricos) e os EUA são os canais de atração em razão da existência de possibilidade de sobrevivência; se a riqueza não vai nas regiões empobrecidas, os empobrecidos vão ao encontro dela. A globalização pode não socializar a riqueza, mas socializa informações, ou seja, as pessoas ficam sabendo onde ela está, onde há oportunidades. Nesse sentido, as migrações internacionais colocam em xeque valores que se universalizaram (globalizaram) como igualdade, liberdade, hospitalidade, propriedade privada, consumo, e, ao mesmo tempo, revelam suas contradições e falácias. A riqueza continua concentrada e protegida; as colonizações continuam, porém, sob o viés de independência nacional e política. O Senegal, por exemplo, que é um dos países de maior emigração da África, era um dos maiores exportadores de amendoim do mundo. Nas últimas décadas, os EUA fizeram um intenso investimento na produção de girassol e milho em países da África e em seu mesmo para transformar esses produtos em óleo comestível e, em situação de dumping (não coibido pela OMC), inseriu com intensidade esse produto no mercado africano, fato esse que acabou destruindo a capacidade de mercado do óleo do amendoim senegalês.  Desse modo, assim com vários países se enriqueceram às custas do empobrecimento histórico de outros em regiões como a África (agricultura e recursos minerais) e o Oriente Médio (petróleo e indústria), pobres do mundo estão revelando as causas de seu empobrecimento. Quem está migrando são islâmicos, de vários países muçulmanos. Essa é uma grande questão; a geografia e as estratégias de poder nesses países de maior conflito (Nigéria, Líbia, Síria, Egito, Tunísia, Afeganistão, Mali, Gabão, Eritréia. Gana) estão se alterando. Velhas ditaduras, em grande parte legitimadas por países ricos ocidentais, estão perdendo forças; há uma cruzada de grupos islâmicos ortodoxos e/ou sectários que se agruparam em grandes agremiações políticas, sob o manto religioso, e que estão ocasionando profunda tensão social. Muitos desses imigrantes, em tese, poderiam ser melhor aceitos em outros países muçulmanos/árabes como é o caso da Arábia Saudita, Dubai, Emirados Árabes, ou seja, países ricos, ainda que com territórios reduzidos. Contraditoriamente, foram países que se fecharam. É interessante para esses desafiar a consciência histórica europeia/ocidental e cristã, bem como disseminar globalmente o fenômeno religioso em regiões do mundo até então de reduzida presença. Os impactos disso serão intensos em múltiplos âmbitos, pois é um cenário de crise econômica (parcos recursos para fazer frente ao imenso desembolso financeiro  para governar isso tudo), de empregos, de reação anti-imigração como lugar comum, do temor do campo religioso e cultural, da falta de controle de inserção de grupos terroristas em meio aos refugiados, enfim, à falta de controle social.


ON - Estas pessoas permanecerão em campos de refugiados por um determinado período e retornarão para seus países de origem ou terão visto de permanência e serão incorporadas no mercado de trabalho?
João Carlos Tedesco -  É difícil prever isso, pois a Europa central – espaços de maior demanda  de asilo - não tem grande tradição de constituir campos de refugiados, ainda que, tanto na Itália, quanto em vários outros países da Europa, os Centros de Permanência Temporária, funcionam como se fosse um campo de refugiados, porém, incorporando imigrantes de várias nacionalidades e intenções. A Europa buscou incorporá-los ao universo do trabalho até porque o custo de manutenção desses campos é muito alto. Desse modo, será difícil prever o que acontecerá; em geral, há instituições, como a Igreja Católica e outras, que, em associações com empresas e a esfera pública, vão distribuindo espacialmente os imigrantes pelos países de chegada dos fluxos e, também, sem sobra de duvidas, acampamentos provisórios serão montados, como estão sendo na Grécia e em outros países,


ON -  É possível pontuar a Primavera Árabe como momento  de eclosão deste movimento rumo à Europa, no caso dos refugiados árabes?
João Carlos Tedesco -  A denominada Primavera Árabe, talvez, tenha sido o maior movimento social e político pós-Segunda Guerra Mundial, pois envolveu múltiplas dimensões sociais, geográficas e políticas que não ficaram reduzidas aos epicentros. Além do mais, sua territorialidade vizinha com a Europa, por isso, suas implicações também refletem com maior intensidade nela. É nesse cenário que se produziu o germe do Movimento denominado Estado Islâmico e que está na causalidade desse intenso fluxo de emigrantes da Síria. Esse grupo atesta a fragilidade do ocidente em resolver as tensões sociais nos países em que ele teve sempre influência; é um novo jogo de poder e, nesse cenário, milhões de pessoas continuam historicamente sendo vítimas. Só que dessa vez, a estratégia da emigração organizada e mediada por agências de viagens, governos, máfias e dos próprios imigrantes, revela que é difícil ficar alheio ou não ser tocado pela realidade da mobilização de centenas de milhares de pessoas atravessando, a pé, arriscando-se no mar, dentro de contêiner , de caminhões ou aparecendo mortas nas costas marítimas da Europa, como tentativa de fuga de um cenário onde não é mais possível viver. A esfera midiática teve um papel importante em mostrar isso tudo para o mundo, desafiar os ricos e a riqueza e a dimensão da hospitalidade  e da vida em última instância. Países estão sendo pressionados pela ONU para encontrar soluções emergenciais  ao problema migratório, mas, acima de tudo, para encontrar solução nas causas; se as conseqüências são difíceis e estão chocando a sociedade ocidental e Europeia em particular, as causas são muito mais difíceis, pois possuem implicações bélicas, jurídicas, políticas, históricas e econômicas.

 
ON -  O Brasil vem recebendo grandes grupos de senegaleses e haitianos. A presidente Dilma disse que o Brasil está de braços abertos para receber os refugiados. Apesar da distância, o país pode virar  alvo de uma grande onda de refugiados sírios?
João Carlos Tedesco - O Brasil está, ainda que com muitos limites e desconhecimento, na vanguarda de um novo processo histórico, algo que não fazia parte com tanta intensidade de sua realidade. Há intensos fluxos de imigrantes adentrando no país, muitos deles em situação também pouco edificante de chegada e de inserção social. O contingente de refugiados ampliou-se nos últimos anos, ainda que se comparado com países de maior tradição, é muito ínfimo. O país, na esteira de vários da América do Sul, em particular, a Argentina, vem participando dessas negociações para receber refugiados sírios. Não há dúvida que esse processo tenderá a aumentar, estará associado, ainda que temporariamente, ao status concedido aos haitianos. Talvez essa nova realidade poderá colocar em xeque e dificultar outras demandas de refúgio com pouca base real como é o caso de senegaleses e de bengalis, que estão em grande número no país e na região. Enfim, são realidades não novas, mas com roupagens, motivos e ritmos diferenciados e que estão impactando na sociedade e que teremos de apreender e conviver sem atritos; é um imperativo de civilização, sociabilidade e cultura que o mundo global nos apresenta.

ON – O senhor participa de uma rede aberta na internet para discussão e divulgação de notícias sobre esta crise, como funciona este veículo?
 João Carlos Tedesco -  O NIEM (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios – NIEM_RJ) é um dos grupos do Yahoo; reúne pesquisadores, estudantes, professores, ativistas e outras pessoas interessadas nas diversas dimensões da problemática migratória. Trata-se de um grupo aberto, sediado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR-UFRJ); o grupo constitui uma rede, na qual circulam mensagem, opiniões, informações, noticiais diárias sobre o mundo migratório. É um meio muito interessante para quem estuda, acompanha e se interessa pelo tema, pois nele circulam informações sobre livros, teses, filmes,documentários, imagens, etc., em torno desse tema contemporâneo premente que é o fenômeno migratório nacional e internacional.


Fonte: O Nacional

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