A cientista política Ellen Meiksins Wood morreu no último dia 14/1/2016, aos 73, vítima de um câncer. Em 2003, ela esteve no Brasil para lançar o livro Democracia contra Capitalismo (Boitempo), um belo livro que a aponta os caminhos que a democracia oferece para por em xeque os dogmas autoritários do capitalismo.
Na visita ao país, ela debateu com Emir Sader e José Eli da Veiga, na FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração) algumas de suas ideias. Dos argumentos do excelente livro e desse encontro que ficaram registradas num texto que escrevi para o jornal O Estado de S. Paulo, tudo para em pé quase treze anos depois.
Abaixo, a íntegra da resenha/reportagem que publiquei em 11/5/2003, no caderno Cultura.
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Ellen Wood discute a democracia no capitalismo
Livro analisa conceitos que fundamentam a cidadania no mundo antigo e no atual

Ellen Meiksins Wood em 2012, durante encontro da Fundação Rosa Luxemburgo, em Berlim
Ellen Meiksins Wood em 2012, durante encontro da Fundação Rosa Luxemburgo, em Berlim
Num certo sentido, não há uma grande novidade na oposição que a noite-americana Ellen Meiksins Wood, professora da Universidade de York, em Toronto (Canadá), faz entre o capitalismo e a democracia. A ideia de que a igualdade jurídica e política que acompanha a instalação das democracias ocidentais é extremamente limitada pela realidade da produção acompanha a história da crítica ao capitalismo, especialmente a feita pelos socialistas.
Ellen, em seu recém-lançado no País “Democracia contra Capitalismo — A Renovação do Materialismo Histórico (Boitempo, 264 págs.), defende ainda, como o fazia o geógrafo brasileiro Milton Santos, que a globalização depende, cada vez mais, dos Estados nacionais: não há capitalismo globalizado sem Estado nacional, ou seja, não há capitalismo global sem poder regional, porque o poder regional é que organiza a globalização.
Essa última consideração resulta numa série de consequências. E ajuda a explicar a continuidade de uma política militar agressiva por parte dos EUA depois da queda do Muro de Berlim e do desfacelamento do do bloco soviético. Sobre esse aspecto, num debate que participou na Faculdade de Economia e Administração da USP, Ellen criticou diretamente o livro Império, de Antonio Negri e Michael Hardt, que defende que há um enfraquecimento dos Estados nacionais.
“Participei de um debate com Hardt na época da invasão do Afeganistão e ele nem a mencionou.” O tema do encontro era a guerra. Para Ellen, uma das motivações para as guerras é, justamente, a necessidade de impor governos locais não apenas simpáticos às necessidades do capitalismo global, mas também capazes de fazer valer suas vontades — o que nem sempre acontece, criando, necessariamente, novas tensões.
Se Ellen não surpreende em algumas das ideias centrais de seu livro e pelos adversários teóricos dentro das fileiras esquerdistas, sua obra se torna bastante interessante quando aprofunda essas idéias, adota algumas abordagens ousadas e mostra-se capaz de analisara trajetória de conceitos, como o da própria da democracia, desde suas origens até o que significa para a sociedade norte-americana contemporânea.
A primeira parte da obra procura redefinir e discutir alguns dos conceitos mais importantes da teoria marxista, como classe, luta de classes, base e superestrutura, etc. O segundo ensaio dessa parte, justamente sobre base e superestrutura, dá uma ideia dos problemas que ela se propõe a enfrentar logo em seu início: “A metáfora base/superestrutura sempre gerou mais problemas do que soluções. Embora o próprio Marx a tenha usado muito raramente e apenas nas formas mais aforísticas e alusivas, ela passou a suportar um peso teórico muito superior à sua limitada capacidade.”
O livro é dividido em duas partes — e é a segunda que lhe empresta o título. Ellen a inicia com uma erudita e, ao mesmo tempo, concreta análise do conceito de democracia antiga e moderna, partindo do princípio de que “os gregos não inventaram a escravidão, mas, em certo sentido, inventaram o trabalho livre”, escreve.
Ela procura, então, mostrar como o trabalho livre tinha um papel fundamental na ideia de cidadania entre os gregos, um problema comumente não aprofundado quando o assunto é tratado. Na sua opinião, o “trabalho livre”, como fator determinante do movimento da história, no mundo antigo, “foi eclipsado pela escravidão” — o que teria mais a ver com a política da Europa moderna do que com a realidade das cidades gregas. “Não se trata de os historiadores não terem reconhecido o fato de ser o corpo de cidadãos de Atenas composto em grande parte de cidadãos que trabalhavam para viver. Pelo contrário, trata-se de que esse reconhecimento não foi acompanhado de um esforço simultâneo para explorar a significação histórica desse fato notável.”
A autora mostra também como a discussão sobre a democracia, na origem dos Estados Unidos, passarão não só pela extensão dos direitos civis, mas também pelo limite que deveria ser encontrado para a participação popular. Nos capítulos finais da obra, Ellen discute questões que estão no centro do debate da democracia norte-americana, como as relações de gênero e raça, questões ecológicas e o pacifismo. Para ela, essas são bandeiras importantes, mas que não eliminam as maiores contradições do capitalismo — entre elas, a de haver promovido a democracia e a de, de modo crescente, precisar controlá-la.
Fonte: Opera Mundi