quinta-feira, 14 de abril de 2016

1986 - Os Estados Unidos bombardeiam a Líbia

Max Altman | São Paulo
Os Estados Unidos lançam em 14 de abril de 1986, por ordem de seu presidente Ronald Reagan (1981-1989), ataques aéreos contra a Líbia em retaliação ao patrocínio do país árabe de atos terroristas contra tropas e cidadãos norte-americanos. O raid, que começou pouco antes das duas da madrugada na Líbia, envolveu mais de 100 aviões da Força Aérea e da Marinha e demorou cerca de uma hora. Cinco alvos militares e "centros de terrorismo" foram atingidos, inclusive o quartel-general do líder líbio Muamar Kadafi.

Ronald Reagan consulta congressistas norte-americanos sobre o ataque


Durante os anos 1970 e 1980, o governo de Kadafi financiou uma ampla variedade de grupos muçulmanos anti-Estados Unidos e anti-Reino Unido, desde as guerrilhas palestinas e os rebeldes muçulmanos das Filipinas até o Exército Republicano Irlandês (IRA) e os Panteras Negras. Em resposta, Washington impôs sanções contra a Líbia e as relações entre os dois países continuaram a se deteriorar.

Em 1981, a Líbia alvejou um avião norte-americano que passava pelo Golfo de Sidra, que Kadafi proclamou em 1973 serem águas territoriais líbias. Naquele ano, o serviço de inteligência da CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA) teria descoberto evidências de conspirações terroristas patrocinadas pela Líbia contra os Estados Unidos, inclusive planos de atentados contra funcionários norte-americanos.

Em dezembro de 1985, cinco cidadãos norte-americanos foram mortos em ataques terroristas simultâneos nos aeroportos de Roma e de Viena. A Líbia foi acusada como responsável pelos atentados e o presidente Reagan ordenou endurecer as sanções, congelando os ativos líbios nos Estados Unidos.

Em 24 de março, confrontos aéreos entre Estados Unidos e Líbia ocorreram sobre o Golfo de Sidra e quatro barcos de guerra líbios foram afundados. Em represália, em 5 de abril, grupos terroristas explodiram a danceteria LaBelle, em Berlim Ocidental, local que todos sabiam ser frequentada por soldados norte-americanos. Um militar e uma senhora turca foram mortos e mais de 200 pessoas ficaram feridas. O serviço de inteligência dos EUA interceptou mensagens de rádio enviadas de Trípoli aos diplomatas em Berlim Oriental ordenando o ataque de 5 de abril contra a LaBelle.

Em 14 de abril, os Estados Unidos voltaram a atacar com dramáticas investidas aéreas contra ca capital, Trípoli, e Benghazi. Três quarteis militares foram atingidos além do principal aeroporto de Trípoli e a base aérea de Benina a sudeste de Benghazi.

Ainda antes que a operação bélica tivesse terminado, o presidente Reagan foi à televisão falar sobre os ataques aéreos: “Quando os nossos cidadãos são maltratados ou atacados em qualquer lugar do mundo", disse, responderemos em autodefesa. Hoje fizemos o que tínhamos de fazer. Se necessário, o faremos novamente."

Chamada de Operação El Dorado Canyon, a ofensiva foi considerada um sucesso pelos oficiais norte-americanos. Uma filha adotiva de 15 meses de Kadafi foi morta e dois de seus filhos, feridos, no ataque a sua residência. Embora nunca o tenha admitido publicamente, houve especulações de que o próprio Kadafi saiu ferido no bombardeio.

Disparos pesados de mísseis terra-ar e de artilharia antiaérea convencional derrubaram um caça F-111 e seus dois tripulantes desapareceram em circunstâncias desconhecidas. Diversos prédios residenciais foram “inadvertidamente” alvo durante os raids e 15 civis resultaram mortos dos por conta dos 'efeitos colaterais'.

Em 15 de abril, navios patrulheiros líbios dispararam mísseis contra uma estação de comunicação da Marinha dos Estados Unidos na ilha italiana de Lampedusa, que não foi atingida. Não houve nenhum grande ataque terrorista ligado à Líbia até a explosão em 1988 de um avião comercial da Pan Am 747 sobre Lockerbie, Escócia. Todos os 259 passageiros e a tripulação foram mortos, além de 11 pessoas atingidas em solo.

No começo dos anos 1990, investigadores identificaram os agentes líbios Abdel Basset Ali al-Megrahi e Lamen Khalifa Fhimah como suspeitos do atentado, mas a Líbia se recusou a enviá-los aos Estados Unidos para lá serem julgados. Contudo, em 1999, num esforço para aliviar as sanções das Nações Unidas contra a Líbia, o coronel Kadafi concordou em enviar os suspeitos à Holanda para serem julgados pela lei e procuradores da Escócia. No começo de 2001, al-Megrahi foi condenado à prisão perpétua, embora continue a alegar inocência e lute para revogar sua condenação. Fhimah foi absolvido.

Por exigência das Nações Unidas e dos Estados Unidos, a Líbia admitiu responsabilidade pelo atentado apesar de não expressar remorso. Foram levantadas as sanções e a Líbia concordou em pagar a cada uma das famílias um valor de cerca de oito milhões de dólares. O primeiro-ministro da Líbia disse que aquele era o "preço da paz", irritando os familiares. Por sua vez a Pan Am, que foi à falência em boa parte, segundo a empresa, como resultado da explosão, segue exigindo o pagamento de 4,5 bilhões de dólares a título de compensação.

Kadafi surpreendeu o mundo quando se tornou um dos primeiros chefes muçulmanos a denunciar a rede Al Qaeda pelos ataques às Torres Gêmeas. Em 2003, ganhou os favores de George W. Bush (2001-2009) quando anunciou a existência de um programa de fabricação de armas de destruição em massa e que iria permitir que uma agência internacional fizesse a inspeção e as desmantelasse. Muitos ressaltaram que Kadafi vinha fazendo essa oferta desde 1999, mas foi ignorado.

Em 2004, o então premiê britânico Tony Blair visitou a Líbia, tendo elogiado Kadafi como um forte aliado na guerra internacional contra o terror. Posteriormente Bush, Sarkozy e o premiê italiano Silvio Berlusconi foram à Líbia e receberam a visita de Kadafi, fechando bilionários negócios que envolveram principalmente petróleo e armas modernas de guerra.
Fonte: Opera Mundi

Nenhum comentário: