sábado, 7 de maio de 2016

Memórias do AHR discute a Boca Maldita


"A Boca falou, seu doutor, está falado, sim senhor"

Sábado, 07/05/2016 às 10:25, por Arquivo Histórico Regional

Profa. Gizele Zanotto (PPGH/UPF)
O processo de redemocratização no Brasil foi vivenciado em anos de abertura controlada pelo governo militar. A partir de 1979, mais efetivamente, esta proposta será implementada progressivamente dando ensejo para que grupos, movimentos, sociedades, categorias profissionais e estudantis, etc., paulatinamente retomassem os espaços públicos em manifestações pró-democracia e pró-liberdade.
Em Passo Fundo, por iniciativa do Dr. Irineu Gehlen e apoio de amigos e colegas, foi implementada a Sociedade Civil Boca Maldita, de caráter filantrópico-cultural, em 05 de abril de 1982. A motivação para sua fundação deriva do conhecimento da primeira Boca Maldita brasileira, fundada em Curitiba, que inspirou a criação também na cidade. Segundo o Estatuto da Sociedade, seu principal objetivo é dar oportunidade de fala aos interessados em defender a liberdade de pensamento. Pouco depois da fundação oficial da Sociedade um monumento foi inaugurado na atual República dos Coqueiros, na Rua General Neto (canteiro central defronte à Catedral Arquidiocesana de Passo Fundo). Nesse monumento/tribuna garante-se o exercício da livre expressão que, a partir de 1995, foi legitimado também por lei municipal com a consideração da tribuna como palco de manifestações populares.
A gestão inicial da Sociedade teve como diretor presidente Irineu Gehlen; Vice-Presidentes Firmino da Silva Duro e Darcio Vieira Marques; Secretários Welci Nascimento e Celso Antonio Busatto; Tesoureiros Romeu Gehlen e Ubirajara Vasconcellos Morsch; e Orador Benedito Hespanha. Apesar desta nominata limitada, a Boca Maldita visava congregar intelectuais, empresários, esportistas, homens de imprensa, rádio e televisão, estudantes, profissionais liberais e população, conforme descrito no Artigo 2º. dos Estatutos Sociais. Do mesmo modo, a previsão de admissão de novos associados estabelecia sua aprovação prévia pelos membros diretores e a inclusão de membros que “tenham prestado relevantes serviços à coletividade”.
A Boca Maldita propicia aos interessados – membros ou não – o direito à voz, a expressão de angústias, desejos e também de críticas. Considerando que a situação de instalação da Sociedade ainda se insere no governo militar, e que os anos 1980 foram de forte crise econômica, a existência de um local público de livre exercício da oratória ganha ainda mais sentido e força. Seu lema reafirma essas considerações: “Pode ser gente, bem, pode ser, pode ser gente boa, na Boca não tem, pode ser, não pois a Boca não perdoa. A Boca falou, seu doutor, tá falado, sim senhor. A Boca pichou, seu doutor, tá pichado.”
O acervo desta expressiva entidade que marcou a história citadina está em vias de ser incorporado oficialmente aos fundos documentais do Arquivo Histórico Regional, pela doação generosa do Dr. Irineu Gehlen. Preservar esta memória documental, histórica, social e cultural é valorizar a complexidade da vida citadina. Disponibilizar este material à pesquisa, tal como o faz Dr. Gehlen, é tornar possível que a riqueza da vivência passofundense possa ser preservada, analisada e conhecida, pois se “a Boca falou, seu doutor, tá falado”!

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