terça-feira, 28 de junho de 2016

Memórias do AHR discute o impeachment de 1992!

A midiatização do Impeachment – Parte 1


Murilo Fernandes, 
acadêmico do curso de História 
III nível/UPF

Apesar da poeira já ter baixado um pouco, o processo de impeachment da presidente Dilma ainda está em andamento. Caso alguém não lembre, não tenha ouvido falar, ou não conheça (o que particularmente acho difícil), um caso um tanto semelhante já ocorreu em terras brasileiras, mais precisamente no ano de 1992, com o excelentíssimo, ilustríssimo, senhor Fernando Collor de Melo. Lembraram?  Pois bem, o intuito aqui não é lhes contar como foi o processo do impeachment de Fernando Collor - até porque ficaria extremamente resumido para caber neste pequeno artigo. O intuito é fazer um comparativo do processo de 1992 com o processo de 2016, através da mídia. A mídia, de modo geral, tem bastante influência nesses processos, pois muitas vezes (quase sempre) é usada de maneira política, para mobilizar, incentivar, incriminar, e por aí vai. Hoje, com a internet, e por sua vez, redes sociais e smartphones, a propagação de acontecimentos políticos chega a grande parte da população, e muito mais rápido que no longínquo ano de 1992. No ano citado, uma mídia bastante usada era a das revistas. Resolvi buscar reportagens de capa das duas mais “famosas” do período que ainda estão em circulação, e fazem parte do acervo de pesquisa do Arquivo Histórico Regional (vulgo AHR). Istoé e Veja. Como o afastamento da presidente Dilma já ocorreu, vamos partir do mesmo ponto em 1992, quando o então presidente Fernando Collor foi afastado. 29 de setembro foi dia. A Istoé publicou em 30 de setembro de 1992 a seguinte manchete – nada tendenciosa - de capa: “Fim do pesadelo, nessa semana começa a reconstrução do Brasil”. Na matéria fica bem claro o posicionamento da revista, pois há uma enxurrada de críticas e coisas do tipo “removido o problema Collor, virá o principal: reerguer o pais sobre terra arrasada”. A Veja, mais “contida” pelo que parece, tinha na capa uma foto do presidente de costas, indo “embora”, e a simples frase: “chegou a hora”. Na matéria aparecem coisas do tipo “Collor tenta controlar a debandada”, falando a respeito dos amigos (aliados políticos) que o abandonaram quando foi afastado. Apesar de não ter uma capa tão polêmica, também foi um tanto tendenciosa. Conseguem perceber a diferença de abordagem do mesmo acontecimento em ambas as revistas?

Vamos adiante. No dia 7 de outubro, outras duas capas, a da Istoé com a seguinte manchete: “Gustavo Krause. O ministro da fazenda de Itamar?”. Na matéria, questionam e criticam Itamar Franco (vice de Collor, que assumiu a presidência), sobre a nomeação de Gustavo Krause - cuja idoneidade é questionada - para o ministério da fazenda. A Veja traz a manchete “Início pífio. Itamar monta um ministério de compadres”. Na matéria surgem críticas sobre as “escolhas atrapalhadas” do presidente, e sobre os nomeados para seu governo. Em 4 de novembro, mais uma capa da Veja, dizendo: “Exclusivo! O que há no computador do esquema de Collor-PC (PC Farias): o manual para assaltar o estado”.

Agora vamos ao início do ano de 1993, analisando brevemente as manchetes de capa da Istoé. “Feliz ano-novo Brasil” (4 de janeiro). “Preços. Desafio de Itamar” (12 de janeiro). “As mulheres do presidente. Itamar escolhe Yeda Crussius (lembram dela?) para o planejamento e Luiza Erundina para Administração” (27 de janeiro). “Mestres da memória de Collor” – delatores que o incriminaram (3 de março). “E nós aqui, sofrendo. Itamar troca de ministros e reafirma sua autoridade, sem tirar o país da incerteza” (10 de março). “É o fim” - sobre a possível prisão de Collor (7 de abril). “Contra a inflação, orações” – crítica ao governo Itamar (24 de abril). “E agora, vai? Itamar tenta FHC na Fazenda” (26 de maio). Nesta última matéria, a Istoé enaltece muito a figura de Fernando Henrique Cardoso, que nas eleições posteriores foi eleito presidente (coincidência?).

Passamos agora para a Veja. “O que é preciso para dar certo. Itamar concerta o governo” (6 de janeiro). “O que há na cabeça de Itamar” – sobre suas intenções no governo (10 de março). “Sexo, drogas, e brigas na Casa da Dinda” – Casa da Dinda era uma mansão de Collor, e as acusações partem de seu irmão Pedro Collor (17 de março). “A crise e o homem. O papel de um presidente num país sem rumo” (19 de maio). “A grande tacada! Desafio de FHC é a última chance de Itamar” (26 de maio). Nesta matéria, a Veja também, de certa forma, enaltece Fernando Henrique Cardoso. Após esse período, manchetes de capas sobre o assunto ficam escassas, tanto em uma revista quanto na outra. Mas a questão é: conseguem perceber as diferentes abordagens para os mesmos temas, e o quanto isso pode vir a influenciar a população? Vale a tentativa de reflexão sobre o assunto.


*O AHR informa que o artigo publicado nesta seção destaca opinião de seu escritor.

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