sexta-feira, 14 de outubro de 2016

1896 – Tragédia de Khodynka deixa quase 1,4 mil mortos na Rússia


Czar Nicolau II sofreu forte pressão para punir os responsáveis pela organização do evento
A Tragédia de Khodynka foi uma histeria coletiva que ocorreu em 18 de maio de 1896 no campo de Khodynka, em Moscou, durante as festividades que se seguiram à coroação do último czar da Rússia, Nicolau II. Fez 1389 vítimas.

Nicolau II foi coroado czar da Rússia em 14 de maio de 1896. Quatro dias depois, seria oferecido um banquete para o povo no campo de Khodynka. Na noite de 17 de maio, milhares de pessoas que ouviram rumores sobre ricos presentes do czar - os presentes eram na verdade um pão francês, um pedaço de salsicha, nozes, uvas passas, figos secos, biscoito e uma caneca em metal esmaltado, sobre o qual estavam gravadas as iniciais de Nicolau II e sua esposa, Alexandra Feodorovna.

O campo de Khodynka era um terreno vago rodeado de cabanas de madeira. No centro uma quantidade de fontes vertiam bebidas diversas. O terreno estava em estado deplorável, cheio de buracos não cobertos pelos organizadores. Ao lado das cabanas havia uma profunda ravina da qual se extraia a areia para conservar as ruas de Moscou. Atrás dessa ravina, havia dois poços, escavados em 1891, por ocasião da Exposição Francesa. Grossas tábuas foram fincadas para tabicar os poços.

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Diversos convidados de outros países estavam em Khodynka no dia da tragédia


As festividades deveriam ser seguidas de peças de teatro e da soltura de balões inflados. Cada convidado poderia se apresentar diante das fontes munidos da caneca e beber gratuitamente.

Na véspera, a multidão atraída pela gratuidade das diversas atividades começou a se dirigir ao campo. À meia-noite, 200 mil pessoas já lá se aglomeravam. Por volta das 4h00, a quantidade de pessoas se aproximava de 400 mil, a maioria buscando um cantinho para se deitar.

Às 10h00 estava programada a liberação do local reservado para as atrações. No entanto, logo cedo a multidão exigiu entrar. As pessoas encarregadas da distribuição das canecas foram tomadas de pavor e gritavam para acalmar o público. Rapidamente, a multidão penetrou em massa no campo de Khodynka, invadindo as casas de madeira.

Empurrados, mulheres, crianças e homens rolaram pela ravina onde se amontoaram gritando de terror. Outros empurrados para a ravina pisotearam os que já se estendiam pelo chão. Os tapumes que cercavam os poços cederam ao peso da multidão e como títeres desarticulados, corpos giravam e caiam nas profundezas dos poços. Em meio a um caos indescritível e pisoteando os corpos que jaziam ao solo, a multidão continuou a se dirigir às cabanas.

Tão logo alertados, os bombeiros e soldados do Exército formaram com dificuldade uma equipe de salvamento e o macabro recolhimento de cadáveres. Três a quatro mil corpos sem vida foram retirados dos poços e da ravina. As vítimas eram transportadas em carroças, mas a coberta de lona mal arrumada deixava entrever braços e pernas já enrijecidos pela morte. 
O que poderia ser uma grande festa se transformou num verdadeiro pesadelo. O restante da jornada foi dedicada a transportar cadáveres a um depósito, feridos aos hospitais e lesionados aos postos de polícia.

No final da manhã 300 mil pessoas ainda se encontravam no campo de Khodynka. Em razão da imensidão do terreno, muitos ignoravam toda a tragédia que acabara de acontecer. Sentados às mesas, bebendo e comendo, assistiam a espetáculos apresentados por comediantes ambulantes.

O povo russo ficou horrorizado com a tragédia, que afetou igualmente a família imperial. Era necessário sancionar os responsáveis. Um grande dilema se colocou diante de Nicolau II. A responsabilidade da organização das festividades de Khodynka havia sido confiada ao conde Vorontsov-Dachkov e ao grão-duque Serge, governador geral de Moscou e tio do imperador. As investigações policiais fizeram emergir a culpabilidade do Grão-duque e de pessoas sob sua responsabilidade. Os demais grãos-duques se opuseram à acusação e invocaram o descrédito que traria a um príncipe da monarquia se ele fosse sancionado. Os irmãos do grão-duque Serge, os grãos-duques Alexis, Vladimir e Paul, advertiram o czar da decisão de renunciar em caso de sanção.

Nicolau II acabou cedendo diante das vivas contestações de membros da família imperial. Algumas pessoas de escalões inferiores acabaram pagando o pato.

Todavia, o povo russo não se deixou enganar. O responsável dessa tragédia era o grão-duque Serge Alexandrovitch e logo o povo o apelidou de “o príncipe de Khodynka”.

Logo depois, à noite, cartazes proclamando a culpa do grão-duque foram afixados nos muros. A polícia os retirou, mas no dia seguinte outros cartazes foram colados.

Muitos cortesãos, místicos que eram, viram nos acontecimentos de Khodynka maus presságios.
Fonte: Opera Mundi

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