domingo, 18 de dezembro de 2016

1663 - Morre Ngola Nzinga, líder tribal angolana da resistência contra Portugal


Ngola Ana Nzinga Mbande comandou diversas tribos durante décadas, lutando contra o tráfico de escravos
Ngola Ana Nzinga Mbande, mais conhecida como Rainha Ginga ou pelo nome aportuguesado Dona Ana de Sousa, soberana dos reinos de Ndongo e de Matamba, sudoeste da África, morre em Matamba em 17 de dezembro de 1663. Seu título real no idioma quimbundo – Ngola – levou os portugueses a denominar a região de Angola.
Ela nasceu em 1582, na família do mani do Ndongo. O pai, Ngola Kiluangi, mantinha relações de paz armada com os portugueses de Luanda. A situação deteriorou-se após sua morte, quando o filho e sucessor, Ngola Mbandi, assume o poder no Ndongo.
Naquela altura, os portugueses ampliaram consideravelmente o tráfico de escravos e empreenderam uma série de incursões para o interior do continente, na esperança de, além de capturarem pessoas, apoderarem-se das imensas reservas de prata. Mbandi lançou uma campanha militar contra os portugueses, tendo antes suprimido a resistência e a rivalidade dentro da família, assassinando o seu sobrinho.
Wikimedia Commons/Ilustração

Rainha Nzinga em negociação de paz com os ocupantes portugueses em 1657. Anos depois, conseguiria apoio dos holandeses
Porém, a campanha militar fracassou. Sua tropa pouco disciplinada não conseguiu resistir à pressão do exército profissional do governador de Angola. A capital, Mbanza Cabana, caiu nas mãos dos portugueses, e a família foi aprisionada.
O novo governador procurava entendimento com o governante do Ndongo. A amizade com os aristocratas locais era condição indispensável para garantir o tráfico regular de escravos cada vez mais procurados para o trabalho nas plantações e nas minas do Brasil.
Em 1621, Ngola Ana Nzinga foi enviada para negociar com os portugueses. Os portugueses ficaram impressionados com o sentido de auto-respeito e astúcia dela, além de outras virtudes. Quando o vice-rei lhe concedeu audiência, ela fez sinal a uma das suas damas para que se ajoelhasse e se fizesse de cadeira, sentou-se em cima das costas dela e permaneceu sentada até ao fim da audiência. Deste modo Nzinga mostrou que se considerava uma participante de pleno direito das negociações, e não um vassalo submisso de Portugal.
O acordo foi celebrado. Calculando que uma mulher tão inteligente e decidida poderia vir a ser uma aliada vantajosa, os portugueses convenceram-na a baptizar-se, tomando o nome de Ana em honra da esposa do governador português.
Em 1624, Mbandi morreu, em circunstâncias pouco claras. Nzinga, ao tornar-se a única governante, renunciou ao cristianismo e rompeu a união com os portugueses. Estava a cumprir a vontade de seus súbditos, descontentes com o tráfico de escravos praticado pelos europeus.
Porém, o primeiro passo foi o envio de uma mensagem para o novo governador de Angola, Fernando de Sousa, exigindo que os portugueses evacuassem as fortalezas do interior. Emergia naquela altura a Companhia Holandesa das Índias Orientais. No verão de 1624, seus navios haviam queimado seis barcos portugueses no porto de Luanda.
Paralelamente, Nzinga começou a preparar seu exército que crescia com a adesão de escravos fugitivos a quem prometia liberdade. Soube atrair para o seu lado as tribos vizinhas, hostis entre si. Em 1625, depois de impasse nas negociações, a guerra se tornou iminente. De tempos em tempos os portugueses, dada a ameaça da Holanda, tentavam um acordo com ela, com a condição de que reconhecesse a sua dependência da coroa portuguesa.  Ela ficou indignada com essa condição, declarando que só cederia se fosse vencida pelas armas.
Wikimedia Commons
Nzinga é homenageada com uma estátua em Luanda
Nzinga é homenageada com uma estátua em Luanda
No começo de 1626, os portugueses prepararam uma expedição militar bem apetrechada que expulsou Nzinga das ilhas do rio Kwanza. Consolidaram suas posições no litoral, porém, sem ter conseguido derrotá-la.

Progredindo em direcção a nordeste do Kwanza, Ana conquistou as tribos locais e atraiu os jagas, um povo guerreiro de combatentes audazes, instalou-se, em 1630-1635, nas montanhas de Matamba, tendo criado uma unidade política forte e estável. Tratava-se de uma espécie de estado semi-feudal hierárquico, em que Nzinga tinha o direito de decidir sobre a vida de seus súditos, mantendo-se o direito materno baseado na linha matrilinear, deixando a mulher em situação favorável na família e na sociedade.
Em maio de 1641, os holandeses voltaram a aparecer ao largo de Luanda, tendo capturado uma caravana de vinte navios, além da própria cidade. Em seguida, apoderaram-se da fortaleza de São Felipe de Benguela. Nzinga soube aproveitar habilmente esta situação, tendo proposto aos holandeses unir os esforços para criar uma união dirigida contra os portugueses. Os holandeses mandaram um destacamento de 300 soldados que ficou sob o comando dela, que conseguiu estabelecer controle de grande parte do litoral, rotas de comércio, inclusive o de escravos, e do interior do país.
Em agosto de 1648, chegou do Brasil Salvador Correia, designado novo governador, à frente de uma forte esquadra e um numeroso destacamento. Os portugueses apoderaram-se novamente de Luanda. Em 1656, o Conselho do Governador  voltou a exigir que Nzinga assinasse um acordo em que ela estaria obrigada a relançar a comercialização de escravos para os portugueses, pagar anualmente um tributo e jurar ser “amigo dos amigos e inimigo dos inimigos” dos portugueses.
O acordo, assinado por fim em abril de 1657 dispunha que estava livre de pagar o tributo e Matamba seguia independente. A última batalha, bem sucedida, da rainha, já idosa, teve lugar no mesmo ano, contra os chefes dos jaga que sempre falhavam ao seu compromisso de não devastar Matamba.
Passou os últimos anos da sua vida em paz, tendo estabelecido relações comerciais com os portugueses e autorizado a cristianização do país. Ana Nzinga Mbandi Ngola faleceu a 17 de Dezembro de 1663. Tinha por volta de 81 anos de idade; durante quarenta destes longos anos foi soberana absoluta do país, tendo levado durante trinta e um anos uma luta desigual, mas heróica, contra os colonizadores portugueses e seus aliados.
Fonte: Opera Mundi

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