terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Porque aprender História? Por Ronaldo Vainfas

DIVULGAÇÃO
Ronaldo Vainfas participou da primeira edição do fHist, em 2011

Diante da polêmica em torno da medida provisória de reforma do ensino médio no País, o portal do fHist convidou historiadores, jornalistas e escritores a se manifestarem sobre o ensino da História. Autor de "Trópico dos pecados", "A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial", "Traição" e "Jerusalém Colonial", entre outros livros, o historiador e professor Ronaldo Vainfas é leitura obrigatória nos cursos de História e abre a nossa série de artigos.
"Aprender História é essencial para formar indivíduos com senso crítico em relação ao mundo no qual estão inseridos. Deve, por isso, ser disciplina obrigatória desde o Ensino Fundamental. É nesta etapa da vida escolar que os alunos constroem a base de sua formação enquanto indivíduos, em meio à qual se transformam de crianças em jovens adolescentes. A História talvez seja a matéria mais vocacionada para a formação de indivíduos conscientes de seu lugar no mundo, pois estuda as alteridades no tempo e no espaço, quer sociedades distintas e remotas, quer as sociedades e o mundo atuais. Mas qual História deve ser ensinada? Não uma História exaustivamente factual, dedicada a incutir fatos, nomes e datas na memória dos alunos, a maioria dos quais sem nenhum interesse para eles. Tampouco deve ser uma História meramente conceitual, dedicada a oferecer modelos de interpretação válidos para quaisquer sociedades ou tempos históricos. O ensino da matéria deve buscar o equilíbrio entre a informação e a interpretação, atento às diferenças entre os valores atuais e os da sociedade estudada. A perspectiva comparativa é a melhor operação para o conhecimento e o ensino da História. O desafio reside em oferecer uma História que faça sentido para o aluno. Fazer com que o estudo de sociedades com valores estranhos dos nossos, incentive a que ele reflita sobre si e sobre o mundo que o cerca. O caminho para tanto é apostar na sensibilização do aprendizado. Explorar, nos materiais didáticos e nas aulas, as experiências individuais de personagens ou de episódios, em diferentes épocas, sejam eles célebres, sejam comuns, desde que permitam iluminar um grupo social ou cultural. O ensino apoiado neste conteúdo sensível, por meio de uma linguagem livre de clichês e atenta à faixa etária do aluno, eis o que me parece o ideal. Em termos curriculares, não convém adotar o tradicional modelo eurocêntrico, claro, mas tampouco se deve invertê-lo, priorizando o Brasil, a América Latina e a África. Todos os continentes merecem atenção. Desde o tempo em que as histórias deles eram paralelas até o processo de globalização atual, passando pela fase em que viviam histórias conectadas - resultado da expansão marítima europeia, queira-se ou não. Estou certo de que este modelo de aprendizagem seria valioso para os alunos em formação escolar, seja qual for a sua escolha futura profissional. Estimularia uma consciência tolerante diante da alteridade. Democrática. Cidadã. Cidadania do mundo, como diria Sócrates, não apenas a de seu país".

Nenhum comentário: