terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Uma estranha efeméride

A “Guerra do Paraguai” comemora 150 anos em 2014. Pouca gente lembrou
Por Vitor Izecksohn
A comemoração dos cento e cinquenta anos do início da Guerra do Paraguai passou praticamente em branco. Espremida entre os cinquenta anos do golpe militar e o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, sobrou pouco espaço para a discussão do último grande conflito platino. Apenas um evento na Escola de Comando e Estado Maior do Exército e uma série na TV Escola, intitulada “A Última Guerra no Prata”, destacaram-se num cenário pouco alvissareiro para aqueles que pesquisam e publicam sobre o tema.
A relação dos historiadores profissionais com questões militares é relativamente recente e ainda pouco influente em termos das agendas de pesquisa, dos editais de bolsas e auxílios e da promoção de eventos de grande porte. E, no entanto, se trata de um dos campos de pesquisa acadêmica que mais cresceu nos programa de pós-graduação nas últimas duas décadas, com a multiplicação de dissertações e teses, além do surgimento de cursos específicos. Uma possível razão para essa disparidade pode ser creditada ao papel reduzido das guerras internacionais para o processo de construção do Estado nacional no Brasil. Com a exceção das participações nas duas guerras mundiais, conflitos distantes que chegaram até nós principalmente através de submarinos e formação de um contingente reduzido, o impacto das guerras foi relativamente pequeno nas instituições e na sociedade. Durante o século XIX uma guerra com as Províncias Unidas do Prata e uma intervenção mais contundente contra Rosas e Oribe adicionaram pouco ao poder despótico do Estado. Essa circunstância não diminui o papel das forças armadas como atores de ponta na história política do século XX. O que submerge é a ideia da mobilização como uma ferramenta de expansão da cidadania e da expansão do poder público.
Desenho dos uniformes usados por soldados brasileiros durante o conflito Foto: Fundação Biblioteca Nacional.
A Guerra do Paraguai constituiu o primeiro grande momento de mobilização nacional. Pouco mais de vinte cinco anos após a derrota da última rebelião regional expressiva, foi possível obter manifestações de patriotismo que vinham de regiões completamente distantes do teatro de operações no Prata. Mas essa onda nacionalista foi obliterada por uma série de problemas burocráticos, que dificultaram a socialização nas forças armadas e pela morosidade na mobilização. Quanto mais crescia o volume de soldados, mas difícil era alojá-los, alimentá-los e transportá-los para o front. A memória popular guardou essa segunda fase, enquanto a memória institucional preservou o sacrifício dos soldados nos nomes das ruas e monumentos. Mas o Estado Imperial não conseguiu premiar os voluntários com as promessas feitas. Para o Império tratou-se de uma questão de honra, com poucos resultados práticos para além da vitória militar: não houve alterações substanciais na infraestrutura, nem o estado adquiriu uma poder maior no que se refere à capacidade de taxar ou de recrutar adequadamente a população. E, no entanto, o conflito constituiu evento fundamental para história do segundo reinado, para a política exterior do Império e para a memória social, especialmente no que se refere a monumentos e nomes de logradouros espalhados pelas cidades brasileiras.
A Guerra do Paraguai foi a última das crises platinas, destacando-se pela duração, pelo grau de mobilização e pela violência. O mais longo conflito militar das Américas proporcionou mudanças tanto nas relações entre os estados envolvidos como também na dinâmica da política interna dos países beligerantes. Para a história do segundo reinado, as causas e consequências dessa guerra permanecem fonte de interpretações bastante diversas. Poucos temas foram objeto de mudanças de enfoque tão grandes, gerando ondas de revisão que seguem transformando a visão do conflito.
Um dos efeitos principais do longo conflito foi a desorganização da vida política e institucional de quase todos os beligerantes. Exceção feita à Argentina, cujo processo de centralização foi acelerado, durante e após a Guerra nenhum dos outros beligerantes beneficiou-se com seu desenrolar. Talvez devido a essa incapacidade de utilizar conflitos externos como instrumentos de consolidação do Estado, a guerra tenha sido identificada por historiadores motivados pela teoria da dependência como conflito imperialista, mais um episódio da derrota de uma razão endógena Latino-Americana. As evidências encontradas até aqui, contudo, não respaldam essa afirmação.
Para o Império a campanha contra o Paraguai constituiu um conjunto de desafios, militares, diplomáticos e de política interna. O país não estava preparado para uma guerra de grandes proporções. Nessas condições, mobilizar a população, transformando civis em combatentes foi tarefa árdua que demonstrou a dificuldade de coordenação entre o centro político e suas diversas periferias. O não cumprimento das promessas feitas aos voluntários agravaria a desconfiança dos militares em relação aos setores dirigentes, na medida em que os sacrifícios feitos nos campos de batalha do Paraguai permaneceriam sem reconhecimento.
Foi a partir da República e, principalmente, na década de 1930, que se generalizou a construção de monumentos comemorativos à Guerra do Paraguai. Esses monumentos enfatizaram o papel dos oficiais, com pouco espaço para os soldados, os escravos e as mulheres, que ajudaram no esforço de guerra. Destacam-se as estátuas equestres que reverenciam os comandantes militares e o monumento comemorativo à Retirada da Laguna, construído na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, construído sobre as ruínas da fortaleza destruída durante a revolta dos militares ligados à Aliança Nacional Libertadora, em novembro de 1935.
Talvez devido a essa incapacidade de utilizar conflitos externos como instrumentos de consolidação do Estado, a guerra tenha sido identificada por historiadores motivados pela teoria da dependência como conflito imperialista, mais um episódio da derrota de uma razão endógena Latino-Americana. As evidências encontradas até aqui, contudo, não respaldam essa afirmação.
A partir de então, a memória do conflito seria manipulada de várias formas, tendendo tanto aos interesses imediatos de uma historiografia patriótica (que prevaleceu até o final dos anos 1950), quanto a visões alternativas, construídas por intelectuais críticos da forma como o poder político era exercido durante a ditadura militar. Só a partir da década de 1980 o conflito seria objeto de pesquisas conduzidas por historiadores profissionais, processo que permanece em curso mediante a publicação de livros e teses. Os novos trabalhos acompanham o aumento das pesquisas produzidas por historiadores alemães e norte-americanos além do aumento da produção comparativa no estudo sobre as guerras do século XIX. Acompanham, também, pesquisas mais gerais sobre o recrutamento militar, a criação de uma cultura disciplinar nas forças armadas brasileiras e o desenvolvimento de um sistema penal. O que parece prevalecer nesses trabalhos é uma visão menos crítica e também menos apologética do conflito. As pesquisas mais recentes focalizaram as repercussões da guerra em termos das questões ligadas à inclusão, à difusão do patriotismo, à profissionalização do exército e suas consequências para a ordem política, com debates sobre a maior ou menor repercussão desse processo em relação à proclamação da república, bem como a questão do recrutamento de libertos e seus impactos na economia e na sociedade do Segundo Reinado. Temas como a iconografia, especialmente o papel da imprensa ilustrada, aprofundaram as discussões sobre as representações patrióticas, a liberdade de opinião e a adesão popular ao esforço de guerra.
É de se esperar que a proliferação de pesquisas, impulsionada pelo número de historiadores interessados no tema e pela profissionalização mais intensa dos arquivos militares ofereçam contribuições que permitam conhecimento mais amplo de questões específicas, relacionadas ao impacto da mobilização sobre a sociedade brasileira e sobre suas estruturas de governo. Essas contribuições permitirão também que o assunto saia de vez do casulo disciplinar da história militar, aprofundando abordagens multidisciplinares que absorvam contribuições de outras áreas das ciências sociais e da própria história.

Vitor Izecksohn – Professor do Instituto de História e do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutor em História pela Universidade de New Hampshire. Fez pós-doutorado no Departamento de História da Brown University, atuando como professor visitante da mesma instituição em 2011. Foi bolsista do Gilder Lehrman Institute of American History (2005) e da Comissão Fulbright (2011). Seus interesses de pesquisa incluem os estudos comparativos sobre militares e sobre a administração pública no Brasil e nos Estados Unidos durante o século XIX, com ênfase na História do Recrutamento militar, nas comparações a respeito do impacto das guerras externas sobre os processos de formação dos Estados nacionais e nos processos de expansão da identificação pessoal através da uniformização das estratégias de documentação. Através de comparações realiza pesquisas sobre a expansão do poder público, especialmente no que se refere ao avanço dos processos de extração de impostos e de soldados.

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