sexta-feira, 21 de julho de 2017

1954: Cessar-fogo na Indochina

Em 21 de julho de 1954, a França e a então República Democrática do Vietnã assinam um acordo de cessar-fogo, dividindo o país asiático em dois: o norte comunista e um frágil Estado pró-ocidente ao sul.
Vietnam Frankreich Schlacht von Dien Bien Phu (AFP/AFP/Getty Images)
"O bom senso e a paz venceram." Com essas palavras, o então primeiro-ministro da França, Pierre Mendès-France, anunciou, em 21 de julho de 1954, o cessar-fogo na Guerra da Indochina. A derrota da "Grande Nação" na batalha de Dien Bien Phu, em maio do mesmo ano, fora o começo do fim do domínio colonial francês no Vietnã.
As negociações de paz em Genebra duraram quase dois meses. Além de representantes da União Soviética, da França, do Reino Unido e dos Estados Unidos, pela primeira vez desde a vitória do comunismo na China em 1949 diplomatas daquele país subiram ao palco da política internacional.
O Vietnã foi representado por duas delegações: uma defendendo os interesses da monarquia Bao Dai (sul) e outra com representantes da Liga pela Independência (Vietminh), liderados pelo primeiro-ministro Pham Van Dong, da República Democrática do Vietnã (norte).
Para ressaltar sua rejeição ao comunismo, o secretário de Estado norte-americano, John Foster Dulles, negou-se a estender a mão para seu colega chinês. "Somente um acidente de automóvel poderia me colocar em contato com Chou-En-lai", declarou à imprensa.
Garantia de soberania e unidade
Dulles permaneceu apenas quatro dias na conferência, da qual os norte-americanos participaram meramente como observadores. "Apenas tivemos a possibilidade de presenciar a tomada de decisões com as quais não concordávamos", disse mais tarde o diplomata Alexis Johnson, um dos observadores dos EUA.
Na declaração final do encontro, foram garantidas independência, soberania e unidade ao Camboja, ao Laos e ao Vietnã. A fronteira provisória entre o Vietnã do Norte (sob o regime comunista de Ho Chi Minh) e o Vietnã do Sul (monarquia independente encabeçada por Bao Dai) foi fixada aos 17 graus de latitude. Além disso, os signatários do documento comprometeram-se a realizar eleições gerais no Vietnã.
Numa declaração complementar, os EUA prometeram renunciar a qualquer intervenção militar no Vietnã. Era evidente, porém, que o Vietnã do Sul e os Estados Unidos jamais cumpririam os acordos, como explicou Johnson:
"A delegação sul-vietnamita deixou claro que não aceitaria a realização de eleições em dois anos. Exatamente essa era também a nossa posição. Todas as acusações de que transgredimos os tratados negociados em Genebra são falsas. Nós não os assinamos; portanto, não tínhamos como transgredi-los."
Decisão só no campo político
A recusa dos EUA em assinar o cessar-fogo e a divisão do Vietnã foram para o então primeiro-ministro norte-vietnamita, Pham Van Dong, a prova de que os norte-americanos, desde o início, eram contra a conferência e sempre tentaram impedir que ela chegasse a uma conclusão positiva.
Mas também o Vietminh só aprovou os resultados da Conferência de Genebra devido à forte pressão da União Soviética e da China. A Liga pela Independência obteve unicamente a garantia de que a luta pelo poder no Vietnã não mais seria decidida pela via militar e, sim, no campo político. O Vietminh estava confiante de que venceria as eleições previstas para todo o país.
Todos os participantes da conferência para a paz na Indochina sabiam que as decisões de Genebra apenas representavam um armistício e não o fim do conflito. O presidente Dwight Eisenhower e seu secretário de Estado, John Foster Dulles, ligaram os Estados Unidos, em 1954, indissociavelmente ao destino do Vietnã do Sul.
Depois da derrota francesa em Dien Bien Phu, os EUA passaram a ocupar o lugar da França, no afã de garantir a segurança do Vietnã do Sul, do Laos e do Camboja. Com isso, os norte-americanos estabeleceram as bases para a intervenção posterior no mais longo confronto militar do século 20: a Guerra do Vietnã (1959-1975).
  • Autoria Michael Kleff (gh)
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quinta-feira, 20 de julho de 2017

1979 - Sandinistas derrotam ditadura de Somoza na Nicarágua


Nicarágua sofreu influência do Reino Unido e dos EUA, que interviu diretamente no país forçando criação da Guarda Nacional, cujo comandante se tornou ditador
A FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional da Nicarágua) entra em Manágua, capital do país, vence a Guarda Nacional e assume o comando em 19 de julho de 1979, derrotando 45 anos de ditadura somozista. A Junta de Reconstrução Nacional tomou o poder e Tomás Borge, único fundador vivo da FSLN, dirigiu-se ao povo: “Começa agora uma guerra mais difícil. Contra a pobreza, a ignorância, a imoralidade e a destruição do país”.
Desde o começo do século XX, a economia nicaraguense baseava-se na exportação de produtos primários, em especial o café. Uma oligarquia rural ligada aos partidos Liberal e Conservador dominava o país. Devido a sua posição estratégica e possibilidades econômicas, o país era há muito objeto do interesse dos Estados Unidos.

A primeira intervenção direta norte-americana data de 1855 e a ocupação militar se deu de 1912 a 1925, quando o país passou da esfera de influência do Reino Unido para os EUA e de 1926 a 1933, a pretexto de restaurar a convulsionada ordem interna. Em 1927, pressionada por Washington, a Nicarágua firmou o Pacto del Espino Negro, que condicionava a desocupação à criação de uma Guarda Nacional.

Wikicommons

Celebração do décimo aniversário do triunfo da Revolução Sandinista, em 1989 
O comando da Guarda foi assumido por Anastácio Somoza García. Três anos depois, em 1936, Somoza deu um golpe de Estado. A fim de consolidar seu poder, buscou sustentação no apoio da Casa Branca, na aliança com a oligarquia local e no controle absoluto da Guarda Nacional e do aparelho estatal.

A Nicarágua passa a viver um relativo crescimento econômico e diversifica a agricultura tradicional com a intensificação da cultura do algodão. Surgem novos setores burgueses nas cidades e no campo, consolida-se o modelo agrário-exportador e intensifica-se a concentração fundiária, com a expulsão dos camponeses de suas terras.

O desenvolvimento capitalista não foi acompanhado pela evolução das instituições do Estado, mantendo-se a ditadura nos moldes oligárquicos tradicionais, com todo um sistema de violências e arbitrariedades. Em 1956, Somoza é assassinado. A presidência passa a ser ocupada pelo filho mais velho, Luis Somoza Debayle, e a Guarda Nacional pelo filho caçula, Anastácio Somoza Debayle.

Em 1972, um terremoto atingiu o país, destruindo quase todo o setor industrial de Manágua, deixando milhares de mortos e feridos. A família Somoza aumenta rapidamente seu patrimônio, lançando mão dos recursos que vinham do exterior para a reconstrução. Aproveitando-se da miséria e do caos econômico, os Somoza adquiriram grande quantidade de propriedades da periferia de Manágua e organizaram empresas imobiliárias e de engenharia, praticamente monopolizando a compra, venda e construção de imóveis.
Surgimento da FSLN

Diante do absoluto predomínio econômico dos Somoza, a oposição burguesa a eles se divide em dois blocos: um, liberal, em torno do diretor do tradicional jornal La Prensa, Chamorro Cardenal, formando a União Democrática de Libertação; o outro, conservador, cria o Movimento Democrático Nicaraguense. Em 1978, Chamorro é assassinado, episódio que teve grande repercussão. As facções resolvem se unir na Frente Ampla de Oposição, para a qual convidaram ainda uma representação da FSLN.

A FSLN tinha sido criada em 1961 por Carlos Fonseca Amador, Carlos Borge e Silvio Mayorga. Com origem em movimentos estudantis dos anos 1940 e 1950 e inspiração na grande resistência popular das décadas de 1920 e 1930 contra a aliança entre a oligarquia nacional e os interesses imperialistas, a FSLN, sob o comando de Augusto César Sandino, travou uma luta de 18 anos contra os Somoza e sua Guarda Nacional.

Após sofrer várias derrotas, garantiram apoio rural e urbano. Nas ações de 1966-67, expropriaram bancos e justiçaram um torturador da Guarda Nacional. Em 1974, invadiram uma festa em homenagem ao embaixador norte-americano e tomaram importantes convidados como reféns, que foram trocados por presos políticos e dinheiro. Em 1978, a FSLN tomou o Palácio Nacional, fazendo cerca de 2 mil reféns, ação que desmoralizou a Guarda Nacional.

No começo de 1979, após seguidas vitórias, deu-se a ofensiva final e Anastácio Somoza teve que fugir do país. Em 19 de julho, as tropas da FSLN ocuparam Manágua, derrocando o Estado oligárquico.
Fonte: Opera Mundi

1944: Atentado de Stauffenberg contra Hitler

Em 20 de julho de 1944, militar liderou um atentado em nome do movimento de resistência ao nazismo, do qual faziam parte vários oficiais. Hitler ficou apenas ferido na explosão da bomba em seu quartel-general.
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O conde Claus Philip Maria Schenk von Stauffenberg é um dos principais personagens da conspiração que culminou no fracassado atentado contra Adolf Hitler em 20 de julho de 1944. Nascido na Suábia em 15 de novembro de 1907, Stauffenberg foi um patriota alemão conservador, que a princípio simpatizou com os aspectos nacionalistas e militaristas do regime nazista.
Mas, desde cedo, começou a questionar não só o genocídio de judeus, poloneses, russos e outros grupos da população estigmatizados pelo regime de Hitler, como também a forma, em sua opinião "inadequada", de comando militar alemão. Mesmo assim, como muitos outros militares, preferiu no começo manter-se fiel ao regime.
Em 1942, junto com seu irmão Berthold e outros membros da resistência, ele ajudou a elaborar uma declaração de governo pós-queda de Hitler. Os conspiradores defendiam a volta das liberdades e direitos previstos na Constituição de 1933, mas rejeitavam o restabelecimento da democracia parlamentar.
Claus Graf Schenk von Stauffenberg mit seinen Kindern
Stauffenberg ao lado de seus filhos
Ferimentos na África
Em março de 1942, Stauffenberg havia sido promovido a oficial do Estado Maior da 10ª Divisão de Tanques, com a incumbência de proteger as tropas do general Erwin Rommel, após o desembarque dos Aliados no norte da África. Num ataque aéreo em 7 de abril de 1943, Stauffenberg perdeu um olho, a mão direita e dois dedos da mão esquerda.
Após recuperar-se dos ferimentos, aliou-se ao general Friedrich Olbricht, Alfred Mertz von Quinheim e Henning von Treskow na conspiração, que passaram a chamar de Operação Valquíria. Oficialmente, a operação pretendia combater inquietações internas, mas, na realidade, preparava tudo para o período posterior ao planejado golpe de Estado.
Os planos do atentado que mataria Hitler foram elaborados com a participação de Carl-Friedrich Goerdeler e de Ludwig Beck. Os conspiradores mantinham, além disso, contatos com a resistência civil. Os planos visavam a eliminação de Hitler e seus sucessores potenciais – Hermann Göring e Heinrich Himmler. A primeira tentativa de atentado em Rastenburg (hoje Polônia), no dia 15 de julho, fracassou.
Explosão causou quatro mortes
Na manhã de 20 de julho de 1944, Stauffenberg voou até o quartel-general do Führer "Wolfsschanze", na Prússia Oriental. Com seu ajudante Werner von Haeften, ele conseguiu ativar apenas um dos dois explosivos previstos para detonar. Mais tarde, usou uma desculpa para entrar na sala de conferências, onde depositou a bolsa com explosivos ao lado do ditador. Incomodado pela bolsa, Hitler a colocou mais longe de si. A explosão, às 12h42, matou quatro das 24 pessoas na sala. Hitler sobreviveu.
Na capital alemã, os conspiradores comunicaram, por telefone, por volta das 15 horas, convencidos do êxito da missão: "Hitler morreu!" Duas horas mais tarde, a notícia foi desmentida. Na mesma noite, Stauffenberg, Haeften, Quirnheim e Friedrich Olbricht foram executados. No dia 21 de julho, os mortos foram enterrados em seus uniformes e condecorações militares. Mais tarde, Himmler mandou desenterrá-los e ordenou sua cremação. As cinzas foram espalhadas pelos campos.  
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quarta-feira, 19 de julho de 2017

Sou UPF: vida acadêmica mais fácil

Aplicativo permite que alunos tenham acesso a várias funcionalidades que facilitam a vida acadêmica
Com o objetivo de trazer inovação e de se aproximar ainda mais dos seus alunos, a Universidade de Passo Fundo (UPF), por meio da Divisão de Tecnologia da Informação (DTI), lançou, no início deste ano, o aplicativo Sou UPF. O aplicativo permite que o aluno de graduação da UPF tenha acesso a várias funcionalidades que facilitam sua vida acadêmica, entre elas, o acesso ao sistema acadêmico, à rematrícula e ao calendário acadêmico. 
O sucesso dessa primeira versão – foram mais de três mil downloads no lançamento – motivou a equipe para o desenvolvimento de novas funcionalidades. Com a atualização, o Sou UPF passou a oferecer acesso também à consulta de avaliações e notas. 
A principal novidade dessa nova versão, no entanto, está no sistema de notificações. “A partir de agora, o aluno recebe notificações de toda a interação que é feita pelo professor. Por exemplo, se o professor libera o plano de ensino, o aluno recebe uma notificação e acessa o plano através do aplicativo”, explica o coordenador da DTI, Gilberto Gampert. De acordo com a analista de negócios da UPF e responsável pelo desenvolvimento do APP, Lisiani Correa, a ideia é justamente facilitar o dia a dia do aluno. “Hoje, o acadêmico acessa via e-mail a informação. Com a notificação, o aluno não precisa ir atrás da informação, ela chega até ele. Isso também foi algo que trouxe bastante facilidade para os alunos”, comenta. 
Além dessas, em breve, o aplicativo ganhará novas funcionalidades, já que a equipe vem trabalhando desde sua criação na melhoria do APP. “A gente quer ver o que o aluno espera do aplicativo e pretendemos construí-lo conforme essa necessidade. Priorizar aquilo que vai fazer com que o aluno use o aplicativo e tenha os recursos de que ele necessita”, comenta. “Tem uma leva de funcionalidades que a gente pretende incluir, mas achamos importante priorizar, neste momento, a comunicação entre professor e aluno”, completou Lisiani. 
O aplicativo Sou UPF está disponível no Google Play e na App Store. Para baixar, basta acessar um dos links abaixo:
Google Play - App Store

terça-feira, 18 de julho de 2017

Bens culturais: da pesquisa à educação patrimonial

Organizadoras:
Ironita A. Policarpo Machado 
Gizele Zanotto








Edição: 1
Ano: 2017
Páginas: 170
ISBN (PDF): 978-857515-986-6
Palavras-Chave: Rio Grande do Sul - História, Patrimônio histórico, Patrimônio cultural, Memória
Áreas do conhecimento: História
Os bens culturais, de uma forma ou de outra, trazem sentimentos, vida e morte, experiências reveladas e soterradas, particularidades e singularidades que podem dizer muito de um contexto histórico específico. Nesse sentido, nas últimas décadas do século XX e início do XXI, os bens culturais passaram a ser estudados com maior amplitude, porque “a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada. O sentimento de continuidade torna-
-se residual aos locais”. É sob esses sentidos, experiências, fragmentos e fiapos de pretérito, ameaçados pela aceleração do contexto social contemporâneo, que pesquisadores se debruçam de memórias-patrimônios à constituição de representações de bens culturais capazes de democratizar, reconhecer e valorizar os diversos grupos humanos e sociais, pretéritos e atuais artesões de identidades.
Ainda, é necessário destacar que essas perspectivas de pesquisa são fruto da ampliação de objetos, problemas e fontes. Os textos que compõem esta coletânea são prova disso, pois apresentam um diverso e consistente corpus documental.
Esta obra está estruturada em cinco capítulos. Os quatro primeiros são temáticas diversas, fruto de pesquisas acadêmicas, mas articuladas entre si pelos campos teórico e empírico dos bens culturais, e o último capítulo traz um panorama de experiências extensionistas acerca do patrimônio.
Os textos possibilitam uma pluralidade de leituras, entre elas, destacamos: os bens culturais como potencializadores de uma diversidade de pesquisas, portanto, de conteúdos carregados de elementos identitários; a ampliação de objetos, problemas e fontes de pesquisa na perspectiva patrimonial, permitindo, assim, a constituição de metodologias próprias, dialogando com as diversas áreas das ciências humanas e sociais; e a prática dialógica do professor-pesquisador com a comunidade em geral por meio de reflexões acerca da pluralidade cultural e subjetiva de seus protagonistas, diante do desafio de problematizar o uso da memória e da história como possibilidade para diversos elementos e acep- ções, como demonstram as reflexões que compõem esta obra.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

1841: Segunda Convenção Londrina sobre Império Otomano

No dia 13 de julho de 1841, as potências europeias assinaram um acordo que proibia navios não turcos de navegar pelos estreitos de Dardanelos e de Bósforo.
Türkei Istanbul (DW/S. Huseinovic)
O vice-rei do Egito, Mohammed Ali, levou em duas ocasiões o Império Otomano à beira da dissolução e as grandes potências europeias a uma grave crise internacional. Em 1832, ele anexou a Síria que, como o Egito, era uma província do Império Otomano, e logo avançou com as suas tropas até as portas de Istambul.
Somente uma intervenção da Rússia salvou o governo otomano de uma derrota completa. Em consequência, a Turquia tornou-se praticamente um protetorado da Rússia, que assegurou então aos seus navios de guerra o direito de atravessar os estreitos de Bósforo e de Dardanelos, o que era tradicionalmente proibido aos outros países.
Em 1839, voltou a ocorrer um confronto militar entre o sultão e seu vassalo infiel. E, mais uma vez, Mohammed Ali conseguiu impor-se militarmente. O diplomata prussiano Helmuth von Moltke, atuante na Turquia há vários anos, constatou na época:
"Quem acompanha atentamente o desenrolar dos acontecimentos no Oriente não pode negar que o império turco se precipita no despenhadeiro da ruína com uma velocidade cada vez maior. Considerando as consequências imprevisíveis que um desaparecimento repentino do Império Otomano na comunidade internacional geraria, não se pode censurar a política europeia, que procura adiar o máximo possível tal catástrofe."
Faltou consenso na Europa
Enquanto Prússia, Áustria, Rússia e Inglaterra concordavam que o Império Otomano deveria ser apoiado, a França tomou o partido dos rebeldes egípcios. No segundo trimestre de 1840, as cinco potências tentaram em vão encontrar uma solução, numa conferência em Londres.
Sem apoio da França, as demais quatro potências aprovaram, em julho de 1840, a primeira Convenção Londrina, dando um ultimato para o restabelecimento do poder do sultão na Ásia Menor. Mas somente a intervenção da frota inglesa é que obrigou o vice-rei egípcio à capitulação definitiva e à retirada da Síria.
O chefe do governo francês, muito indignado com essa afronta, viu-se obrigado a ameaçar as outras potências com guerra, por pressão da opinião pública. Contudo, a ameaça era militarmente pouco realista. A França não teria condições de enfrentar sozinha as quatro outras potências no campo de batalha. O rei francês Luís Felipe 1º demitiu seu chefe de governo pouco depois e cedeu na questão.
Sem a participação da Turquia
Em julho de 1841, chegou-se então a um consenso entre todas as potências europeias na Segunda Convenção Londrina, que regulava também a questão dos estreitos marítimos:
Artigo 1º: Sua Alteza o Sultão declara de sua parte que está firmemente decidido a manter no futuro o princípio básico fixo e imutável como velha regra do seu império, por força do qual é proibida em qualquer época aos navios de guerra das potências estrangeiras o cruzamento dos estreitos marítimos de Dardanelos e do Bósforo, e enquanto o governo turco encontrar-se em paz, Sua Alteza não permitirá a entrada de nenhum navio de guerra estrangeiro nos citados estreitos marítimos. E Suas Majestades o imperador da Áustria, o imperador da Rússia, o rei dos franceses, a rainha da Grã-Bretanha e o rei da Prússia unem-se para observar esta resolução do Sultão e para preservar a conformidade com o princípio básico acima mencionado…
Com isso, foi atribuído oficialmente à Turquia o papel de guardiã dos estreitos marítimos. Porém, as duas convenções londrinas, ambas aprovadas sem a participação do governo turco, deixaram uma coisa clara: o antes poderoso Império Otomano tornara-se um fantoche nas mãos das potências europeias.
Mas também as relações de força entre as grandes potências haviam se alterado. A influência russa em Istambul foi enfraquecida pelo documento; a Turquia passou a buscar cada vez mais o apoio da Inglaterra. O bom entendimento entre britânicos e franceses ficou prejudicado, e a reputação da França sofreu arranhões, por seu comportamento durante a crise.
  • Autoria Rachel Gessat (am)
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sábado, 8 de julho de 2017

Unesco declara Hebron Patrimônio Mundial e território palestino

Na área antiga da cidade localizada na Cisjordânia ocupada se encontra o que seria o túmulo de Abraão, figura bíblica importante para judeus e muçulmanos. Decisão é saudada por palestinos e criticada por Israel e EUA.
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No centro antigo de Hebron está localizado o Túmulo dos Patriarcas,
para judeus, ou Mesquita de Ibrahim, para muçulmanos
A Unesco incluiu a área antiga da cidade de Hebron, na Cisjordânia ocupada, na lista de Patrimônios Mundiais. O comitê responsável classificou Hebron como um "local de valor universal excepcional"e território palestino. Além disso, a área foi inscrita na relação de lugares em perigo.
A decisão – saudada por palestinos, mas duramente criticada por Israel e EUA – foi adotada após acalorado debate na cidade polonesa de Cracóvia, onde a Comissão de Patrimônio Mundial da Unesco realiza sua 40ª reunião.
A inclusão de Hebron na lista teve 12 votos favoráveis, seis abstenções e três votos contra. Para ser incluído na lista, um local precisa ter votos favoráveis de pelo menos dez membros da Comissão. A classificação de Patrimônio Mundial é atribuída a locais considerados de importância única ao mundo e à humanidade e determina o estabelecimento de medidas que garantem sua preservação.
Na área antiga de Hebron, se encontra o Túmulo dos Patriarcas. Segundo a tradição judaica, neste túmulo estariam enterrados Abraão – considerado antecessor comum das principais religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo – ao lado de sua esposa Sara. Além disso, também estariam enterrados outros casais bíblicos importantes: Adão e Eva, Isaac e Rebeca e Jacó e Lea.
Durante os tempos do rei Herodes, foi construído um monumento quadrangular ao redor do túmulo e posteriormente os muçulmanos edificaram o que é conhecida como a Mesquita de Ibrahim, o nome árabe para Abraão.
Netanyahu: "Decisão delirante"
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, criticou a votação da Unesco e anunciou um corte de 1 milhão de dólares em financiamento para a ONU.
"É outra decisão delirante da Unesco", disse. "Desta vez, eles determinaram que o Túmulo dos Patriarcas é um local palestino, o que significa que não é judeu, e que está em perigo."
"Que não é judeu? Quem está enterrado ali? Abraão, Isaac, Jacó. Sara, Rebeca e Lea. Nossos patriarcas e matriarcas. E que o lugar está em perigo? Só onde Israel governa, como em Hebron, há liberdade religiosa garantida para todos", afirmou Netanyahu.
Em um ano, Tel Aviv reduziu pela quarta vez seu financiamento às Nações Unidas, diminuindo sua contribuição ao organismo internacional de 11 milhões para 2,7 milhões de dólares.
A embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, afirmou que a decisão da Unesco foi uma "afronta à história" e que "desacredita ainda mais uma agência já altamente questionável da ONU". "O voto de hoje não faz nenhum bem", resumiu, num comunicado.
Washington deixou de financiar o organismo internacional em 2011, depois que a ONU admitiu os palestinos como Estado-membro. Os EUA, no entanto, continuam sendo membro do conselho executivo de 58 membros da Unesco.
Haley disse que, depois da decisão de listar Hebron como Patrimônio Mundial, "os Estados Unidos estão avaliando o nível adequado de seu contínuo compromisso na Unesco".
"Hebron pertence ao povo palestino"
Por outro lado, a Autoridade Palestina, que propôs a classificação de Hebron como Patrimônio Mundial, saudou a decisão da Unesco como "uma vitória da batalha diplomática travada em todas as frentes, face às pressões israelenses e americanas".
O ministro do Turismo da Autoridade Palestina, Rula Maayah, afirmou que a decisão é "histórica porque sublinha que Hebron" e a sua mesquita "pertencem historicamente ao povo palestino".
  • Data 07.07.2017
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sexta-feira, 7 de julho de 2017

Base Nacional Comum Curricular: muitas perguntas, poucas respostas

Documento começa a ser discutido na sexta 7 em audiências públicas pelo país; especialistas ainda falam em assegurar pautas importantes
 

1807: Assinada Paz de Tilsit, auge do reinado de Napoleão

No dia 7 de julho de 1807, o Tratado de Tilsit (em referência à cidade que ficava na Prússia) marcava o fim da Quarta Guerra de Coalizão entre a França e a Rússia e, dois dias mais tarde, entre a França e a Prússia.
Illustration Napoleon in Tilsit (picture-alliance/HIP)
Napoleão Bonaparte não imaginava que a Prússia algum dia ousasse enfrentá-lo sozinha: ele jamais poderia contar com tanta imprudência. Desde que se tornara comandante geral do exército francês, em 2 de março de 1796, sofrera uma única derrota, em agosto de 1798, ao enfrentar o almirante inglês Horatio Nelson.
Nos sete anos seguintes, as tropas napoleônicas colecionaram uma vitória após a outra e conquistaram todo o continente europeu. A derrota arrasadora imposta em Austerlitz ao exército russo-austríaco, numericamente superior, na Batalha dos Três Imperadores a 2 de dezembro de 1805, confirmara definitivamente a supremacia militar da "Grande Nation".
"Libertação" da Europa
A França pretendia "libertar" a Europa, dizia Bonaparte. Após sua coroação, em 2 de dezembro de 1804, ele restabelecera a monarquia em seu país, mas seguia propagando os ideais da Revolução Francesa: liberdade, igualdade, fraternidade. Aos povos italianos, por exemplo, prometeu que viria para romper os grilhões. "O povo francês é amigo de todos os povos. Só fazemos guerra contra os tiranos que os oprimem", dizia.
Napoleão modernizou a Europa. O "Code Civile" – também denominado "Código Napoleônico" – garantiu de forma pioneira os direitos individuais. Mas os renanos e os belgas perceberam desde o início das guerras napoleônicas que os franceses não os libertavam de forma altruísta da escravidão feudal: eles também impunham pesados impostos para cobrir gastos militares, desorganizavam os exércitos locais e desvalorizavam as moedas nacionais.
O acordo de paz de Pressburg custara à Áustria enormes perdas territoriais. Apesar de cortejada pela França, a Prússia permanecera neutra durante o conflito. Após a guerra, Napoleão começou a pressioná-la diplomaticamente, exigindo o reconhecimento do Rio Reno como "fronteira natural" entre os dois reinos.
Missão suicida
O rei Frederico Guilherme 3º da Prússia deu um ultimato às tropas francesas para que se retirassem do território alemão no lado leste do Reno. Convencida da sua força, a Prússia partiu isoladamente para o confronto com o poderoso adversário, numa missão praticamente suicida.
Em represália, as tropas napoleônicas invadiram a Turíngia. As batalhas de Jena e Auerstedt foram catastróficas para o exército prussiano. Treze dias mais tarde, Napoleão tomou Berlim. Frederico Guilherme 3º fugiu para a Prússia Oriental, de onde deu continuidade à guerra, com o apoio da Rússia.
Mas os franceses derrotaram também o exército do czar na batalha de Friedland, a 14 de junho de 1807. Depois de fracassar no confronto militar, a Prússia ainda sofreu uma derrota completa no campo diplomático, entre 7 e 9 de julho de 1807.
No dia 7 de julho, o Tratado de Tilsit (em referência à cidade que ficava na Prússia, na região de Kaliningrado, hoje Rússia) marcava o fim da Quarta Guerra de Coalizão entre a França e a Rússia e, dois dias mais tarde, entre a França e a Prússia. Em consequência da série de derrotas, a Prússia foi ocupada pelas tropas francesas.
Napoleão dividiu o continente europeu em duas partes, concedendo à Rússia liberdade de ação contra a Suécia e a Turquia. Graças à intervenção do czar Alexandre 1º, a Prússia não foi riscada do mapa, mas perdeu 2,7 milhões de milhas quadradas do seu território e 5 milhões de habitantes, que passaram a integrar o reino da Vestfália, governado pelo irmão de Napoleão, Jérome Bonaparte. À França coube o recém-criado ducado de Varsóvia, em união com a Saxônia.
Com Tilsit, Napoleão chegava ao auge do seu reinado, enquanto a Prússia batia no fundo do poço, depois de 100 anos de ascensão. O governador de Berlim, conde Schulenburg-Kehnert, fixou num cartaz o código de conduta adequado à época: "O rei perdeu uma batalha. Agora, a primeira obrigação civil é manter a calma".
Coligação europeia
Mas Napoleão queria mais. O fim das guerras era imprevisível. Os acordos de paz de Campo Formio (1797), Lunéville (1801), Amiens (1802), Pressburg ou Tilsit não passavam de tréguas: a meta do imperador francês era conquistar o mundo. Mas ele fracassou às portas de Moscou, em 1812.
A Prússia aproveitou a derrota para realizar reformas políticas internas, que derrubaram o absolutismo e viabilizaram a consolidação de um moderno Estado constitucional. Junto com a Rússia, a Áustria, a Inglaterra, a Suécia e a Baviera, formou uma coligação europeia contra Napoleão.
O esgotado exército francês foi derrotado na Batalha dos Povos, nos arredores de Leipzig, em outubro de 1813. No Congresso de Viena, em 1815, a Prússia ressurgiu como grande potência e restabeleceu-se na Europa um equilíbrio de forças, ainda que frágil.
  • Autoria Frank Gerstenberg (gh)
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quinta-feira, 6 de julho de 2017

1415: Reformador Jan Hus morria na fogueira

Em 6 de julho de 1415, o reformador tcheco Johannes (Jan) Hus foi queimado na fogueira por criticar o poder terreno da Igreja em prol da justiça social. Diante do Concílio de Constança, recusou-se a renegar sua doutrina.
Jan Hus von Erhard Schoen (picture-alliance/Heritage-Image/Fine Art Images)
Pregar a glória divina como sendo predeterminada por Deus e rechaçar a dedução do poder terreno da Igreja era uma heresia no século 15, podendo ser punida com a morte. O reformador Jan Hus atacava assim a essência do cristianismo medieval.
Ele pregava o ideal da pobreza e condenava o patrimônio terreno dos príncipes da Igreja. Ele defendia a autoridade da consciência e tentava aproximar a Igreja do povo, através das pregações. Suas pregações eram feitas na língua tcheca e não em latim, como determinava a Igreja oficial na época.
Jan Hus só reconhecia a autoridade da Bíblia nas questões da fé, repudiava os tribunais da Inquisição e os juízes terrenos. Aos olhos da Igreja de então, um verdadeiro herege, que suscitava a cólera e o ódio das autoridades eclesiásticas.
Insatisfação popular
A doutrina de Jan Hus encontrou solo fértil na Boêmia. Ela se baseava na justiça social e expressava a insatisfação de todos os cidadãos tchecos. Na época, a agitação envolveu todas as camadas sociais.
A maior parte da população estava insatisfeita com a política financeira e de poder das autoridades eclesiásticas: negociantes e mestres artesãos disputavam as riquezas oriundas da mineração de prata, os camponeses queriam libertar-se da servidão feudal e os nobres tentavam assegurar os seus privilégios.
As tensões sociais agravavam-se ainda através do rápido aumento de preços, que beneficiava sobretudo os cidadãos ricos, empobrecendo os camponeses e os nobres sem terra.
Conflitos entre alemães e tchecos
E as profundas barreiras sociais entre as populações alemã e tcheca faziam florescer sentimentos nacionalistas. Os ricos alemães eram vistos pelos tchecos como exploradores e concorrentes. Da sua parte, os alemães mostravam-se interessados em manter a situação vigente e, especialmente, em usar o poder da Igreja em proveito próprio.
Por volta de 1400, tanto a recém-fundada Universidade de Praga como a alta hierarquia da Igreja eram inteiramente dominadas pelos alemães.
Com Jan Hus começou a agitação. Quando a disputa entre alemães e tchecos agravou-se, em 1409, os alemães foram postos para fora da Universidade de Praga e Hus foi escolhido como seu reitor. A atividade docente do reformador aumentou ainda mais as tensões com a Igreja e culminou em Praga, três anos mais tarde, com o confronto entre os protestantes tchecos e os católicos alemães.
A fim de manter a situação sob controle, o rei Venceslau baniu o reitor rebelde da universidade. Mas Jan Hus insistiu que sua doutrina era a correta: continuou pregando a imprescindibilidade da pobreza e da humildade da Igreja.
As consequências vieram logo. Em 1414, Hus foi convocado a se apresentar ao Concílio de Constança e a negar a sua doutrina. O reformador negou-se a cumprir a exigência. No dia 6 de julho de 1415, Hus foi morto na fogueira.
Não foi atingido, porém, o propósito da Inquisição, de liquidar o movimento protestante de Hus através da morte do seu líder. As revoltas esparsas transformaram-se numa rebelião geral dos protestantes da Boêmia, que durou 20 anos. Só em 1434 é que o movimento foi aniquilado, em decorrência de traições e intrigas nas próprias fileiras.
  • Autoria Barbara Fischer (am)
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domingo, 2 de julho de 2017

Como um bispo medieval adiantou a teoria do Big Bang no século 13


Ilustração de Julius Schnorr von Carolsfeld (1852-60)Direito de imagemGETTY IMAGES
Image captionO primeiro dia da criação em ilustração de Julius Schnorr von Carolsfeld (1852-60)

O livro bíblico do Gênesis, no capítulo 1, versículo 3, conta: "E Deus disse: faça-se a luz! E a luz foi feita".
Mas esse foi apenas o começo da criação do universo. Isso, de acordo com a Bíblia, é o que Deus fez depois da luz:
"E disse Deus: Haja luzeiros no firmamento do céu para dividir o dia e a noite, e para sinais e para estações, e para dias e anos;
e sirvam de luminares no firmamento do céu para alumiar a terra. E assim foi.
E fez Deus os dois grandes luminares, o luminar maior para governar o dia e a luz menor para governar a noite; fez também as estrelas.
E Deus os pôs no firmamento do céu para alumiar a terra, e para governar o dia e a noite, e para separar a luz das trevas. E Deus viu que isso era bom."

Desenho de Robert Grosseteste em livro medievalDireito de imagemCREATIVE COMMONS
Image captionRobert Grosseteste era um bispo curioso pela origem do universo

No século 13, um estudioso inglês da ordem dos franciscanos mergulhou nesse tema.
Robert Grosseteste trabalhou em um dos grandes centros de aprendizagem em Oxford, local que as pessoas já tinham começado a chamar de "faculdade".
Para Grosseteste, tudo tinha a ver com a luz, até o ato divino primordial da própria criação.
Mas como exatamente Deus fez a criação?
A resposta do religioso foi a primeira tentativa de descrever os céus e a Terra usando um conjunto de leis.
Do ponto de vista de Grosseteste, tudo começou com a luz e a matéria explodindo a partir de um centro: uma versão medieval do Big Bang.
Sua história mostrou como a fé em princípios científicos, combinada com a crença em um cosmos ordenado por Deus, resultou em uma ideia surpreendentemente profética.

Inicia com luz...


A Coroação da Virgem, 1635-1648Direito de imagemGETTY IMAGES
Image captionA luz sempre foi um elemento presente no cristianismo

Mas o que é a luz? Essa pergunta nunca foi simples.
Alguns dos primeiros escritores cristãos pensavam que havia dois tipos diferentes de luz.
lux, como era chamado em latim, era o que Deus usou para fazer o cosmos, uma espécie de força criativa divina, quase uma manifestação do próprio Deus.
A outro era lúmen, luz comum que emana de corpos celestes e nos permite ver as coisas.
Essa visão fica evidente para qualquer pessoa que tenha estado em uma catedral gótica inundada pela luz que entra através dos vitrais das janelas.
Sacerdotes e teólogos pensavam que, ao contemplar a bela lúmen da igreja, os fiéis seriam atraídos pela lux bendita de Deus.

Religião e ciência


Obra de James Barry, 1795.Direito de imagemWELLCOME IMAGES
Image captionEm obra de 1795, um arcanjo releva a natureza física do universo a um grupo de filósofos; entre eles, Robert Grosseteste

Embora hoje pareça haver um conflito entre ciência e religião, durante grande parte da história a religião foi uma grande motivação para a busca de conhecimento no mundo.
Nas escolas das catedrais dos séculos 11 e 12 - predecessoras das universidades - alguns estudiosos pensavam que era seu dever aprender mais sobre o universo que, para eles, havia sido criado por Deus.
Eles não consultavam apenas a Bíblia: liam os escritos dos antigos gregos como Platão, Aristóteles e Hipócrates, que tinham sido preservados em traduções feitas por escritores islâmicos.
O aprendizado sobre o mundo natural floresceu na era das grandes catedrais góticas, e muitos historiadores falam de um primeiro Renascimento no século 12.

A mais bela das entidades


Vitral con o nome de GrossetesteDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionGrosseteste nasceu por volta de 1175 em Suffolk, na Inglaterra, e morreu em 1253.

Robert Grosseteste nasceu em meio a essa época emocionante.
No início do século 13, ele era um professor proeminente, erudito e, como todos os pesquisadores em Oxford, cristão devoto. Em 1235, tornou-se bispo de Lincoln, na Inglaterra.
Para ele, a luz era uma das mais maravilhosas criações de Deus.
"A luz física é a melhor, a mais deleitável, a mais bela de todas as entidades que existem. A luz é o que constitui a perfeição e a beleza de todas as formas físicas", escreveu.
Mas Grosseteste não se conformava com apenas apreciar a luz que entrava pelas grandes janelas da catedral gótica de Lincoln. Ele começou a estudá-la como um cientista.
Analisou, por exemplo, a passagem da luz através de um copo de água.
Ele percebeu que lentes poderiam ampliar objetos, e quando alguém lê o que o bispo escreveu sobre o assunto, começa a se perguntar por que demorou mais de 300 anos para que telescópios e microscópios fossem inventados.
"Esta parte da ótica, quando bem compreendida, mostra-nos como podemos fazer as coisas que estão a uma distância muito grande parecerem como se estivessem muito próximas, e as coisas grandes que estão perto parecerem muito pequenas, e como podemos fazer as pequenas coisas que estão distantes parecerem de qualquer tamanho que queremos, de modo que poderia ser possível ler as letras mais pequenas a distâncias incríveis ou contar a areia ou sementes ou qualquer tipo de objetos minúsculos", escreveu Grosseteste.

Um dos primeiros telescópiosDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionApesar de descobertas de Grosseteste adiantarem mecanismo de telescópios, eles só foram inventados 300 anos depois

Além disso, ele notou que a luz muda de trajetória ao passar do ar para a água, um efeito chamado de refração.
Como outros antes dele, Grosseteste viu que a luz poderia dividir-se em um espectro colorido como um arco-íris, e escreveu um tratado sobre o fenômeno, no qual chegou perto de explicar sua origem: pensou que as nuvens agiam como uma lente gigante que refratava a luz e a enchia de cor.

"De luce"

Em 1225, Grosseteste reuniu o que havia concluído sobre a luz em um livro chamado "De Luce" (Sobre a Luz).
Era uma mistura de teologia, ciência, metafísica e especulação cósmica.
Mas tratava, em particular, da questão de como Deus fez todo o cosmos usando a luz.
Em vez de tratar a criação como uma espécie de ato mágico, Grosseteste começou a transformá-la em um processo natural, algo que hoje chamaríamos de "estudo científico".

Vitral do século 19 com a figura de Robert GrossetesteDireito de imagemCREATIVE COMMONS
Image captionGrosseteste não se conformou apenas com admirar a luz, e quis estudá-la

Como muitos de seus contemporâneos, ele acreditava que Deus trabalhava com princípios simples, baseados em regras que a humanidade poderia compreender pela lógica, geometria e matemática.
"Todas as causas de efeitos naturais devem ser expressadas por meio de linhas, ângulos e figuras, porque caso contrário seria impossível ter conhecimento da razão destes efeitos", escreveu.
E como o universo era governado pela matemática, era também ordenado e racional - e seria possível deduzir suas regras.
Na verdade, a descrição de Grosseteste da criação divina é tão precisa, que pode ser expressada em um modelo matemático, algo que historiadores e cientistas da Universidade de Durham, no Reino Unido, fizeram com a ajuda de um computador.

A máquina do mundo


Ilustração do universo geocêntricoDireito de imagemGETTY IMAGES
Image captionNa época do bispo, a Terra ainda era o centro do universo

Para Grosseteste e seus contemporâneos, o universo consistia na Terra, que ficaria no centro, e todos os corpos celestiais - o Sol, a Lua, os sete planetas conhecidos e as estrelas que giravam ao seu redor em círculos perfeitos.
Mas, para ele, tudo começou com uma espécie de Big Bang, no qual uma explosão de luz - do tipo lux - fez com que uma densa esfera da matéria se expandisse, tornando-se cada vez mais leve e diluída.
"Essa expansão dispersaria a matéria 'dentro de uma esfera do tamanho da máquina do mundo', que é como ele chama o cosmos", diz Tom McLeish, um dos físicos da Universidade de Durham que traduziu a teoria cosmológica de Grosseteste para um modelo matemático.
"Mas logo encontra um problema: (a matéria) não pode se expandir infinitamente, porque nessa época o universo era enorme, mas finito. Como pará-lo? Com uma brilhante ideia científica. Pensando como um físico, recorre a algo simples para explicar não apenas como (o universo) deixa de expandir, mas como as esferas são formadas."

Uma luz brilhante na escuridão

"Se você não pode alcançar o vazio, porque a natureza tem aversão a ele", reflete Grosseteste, "deve haver uma densidade mínima, e quando chega-se a ela, a (matéria) tem que cristalizar".
Seguindo essa linha de raciocínio, isso ocorreria em primeiro lugar na parte mais distante: o firmamento. Esse se cristaliza primeiro e se aperfeiçoa, adquirindo luz - lúmen-, que também empurra a massa, neste caso, para dentro, e, portanto, são criadas as esferas nas quais residem os planetas, o Sol, a Lua e a Terra.

Robert GrossetesteDireito de imagemCREATIVE COMMONS
Image captionRetrato de Robert Grosseteste como bispo de Lincoln, dando as benções com a mão direita

"Outro pensamento moderno que ele teve foi que, quando olhamos para o céu, o universo que vemos de alguma forma contém os rastros ou eco dos processos que o formaram", disse McLeish.
"Isso é precisamente o que os cosmólogos pensam hoje em dia. Lembre-se da busca por microondas no eco do Big Bang", acrescentou com entusiasmo.
"A única parte obscura da Idade das Trevas (entre a queda de Roma e o Renascimento) é a nossa ignorância sobre essa época. Grosseteste é um pensador impressionante", disse McLeish.
"A história que me contaram quando era jovem era que antes de 1600 não havia mais do quemisticismo, teologia e dogmatismo. E de repente apareceram Galileu, Kepler, uau! Tudo é luz e iluminação, e voltamos a andar com a ciência ", diz o físico.
"Mas a verdade é que a ciência não funciona assim. Todos nós damos pequenos passos e, como disse Isaac Newton, todos nós subimos nos ombros de gigantes. E Grosseteste é um daqueles gigantes em cujos ombros subiram os primeiros cientistas modernos."
Fonte: BBC Brasil